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Como o príncipe herdeiro saudita molda a diplomacia mundial

Por Brasil Direto

O príncipe saudita Mohammed bin Salman durante sua reunião com o secretário de Estado Marco Rubio em Riad, na Arábia Saudita, em 17 de fevereiro de 2025. Foto: Evelyn Hockstein/AP

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, tem buscado há anos consolidar sua posição como uma figura de destaque no cenário mundial. Nesta semana, ele esteve no centro das atenções diplomáticas ao se envolver em discussões sobre duas das crises mais urgentes da atualidade.

Na segunda-feira, 17, Mohammed bin Salman recebeu o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em Riad, para debater os desdobramentos da guerra na Ucrânia e a situação na Faixa de Gaza. No dia seguinte, a capital saudita foi palco de conversas entre representantes dos governos dos Estados Unidos e da Rússia.

Já nesta sexta-feira, 21, o reino sediará um encontro com autoridades árabes para definir estratégias de reconstrução em Gaza.

A Arábia Saudita emergindo como anfitriã de negociações tão significativas reforça a crescente influência de Mohammed bin Salman na política global. Essas movimentações representam uma reviravolta para o líder saudita, que durante um período enfrentou isolamento diplomático devido a controvérsias, incluindo acusações de violações de direitos humanos. Entre elas, está a suspeita de envolvimento na morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, em 2018, caso que gerou forte repercussão internacional e que ele nega.

Em 2016, um ano após seu pai, o rei Salman, assumir o trono, Mohammed bin Salman lançou a Visão 2030, um plano ambicioso para diversificar a economia do país e reduzir a dependência do petróleo. A estratégia previa maior inserção dos sauditas no setor privado, incentivo ao investimento estrangeiro e a privatização parcial da estatal petrolífera Saudi Aramco.

Além das reformas econômicas, ele também promoveu mudanças sociais significativas, como o fim da proibição de mulheres ao volante. Para atrair investidores, organizou uma conferência financeira de alto padrão, onde destacou uma nova abordagem para o islamismo no país, defendendo um modelo mais aberto e moderado.

Ainda em 2017, Mohammed bin Salman se tornou o centro de uma intensa movimentação política ao ordenar a detenção de diversas figuras influentes da Arábia Saudita, incluindo membros da família real e empresários poderosos, sob a justificativa de combate à corrupção. Os detidos foram mantidos no hotel Ritz-Carlton, em Riad, e muitos só foram liberados após cederem grandes quantias de dinheiro ou transferirem o controle de suas empresas para o governo.

Embora o príncipe tenha defendido que a medida era essencial para restaurar a confiança dos investidores, críticos apontaram que se tratava de uma manobra para eliminar adversários políticos e consolidar seu domínio sobre o reino.

Fora das fronteiras sauditas, Mohammed bin Salman também se envolveu em confrontos diretos para conter a influência do Irã na região. Em 2015, enquanto ocupava o cargo de ministro da Defesa, liderou uma coalizão militar contra os rebeldes houthis no Iêmen, um conflito que se arrastou por anos e causou graves crises humanitárias.

Em 2017, buscou enfraquecer o Hezbollah no Líbano ao pressionar o então primeiro-ministro Saad Hariri a renunciar publicamente durante uma visita à Arábia Saudita. No entanto, a estratégia acabou fortalecendo ainda mais o grupo libanês, tornando-se um escândalo internacional.

As relações de Mohammed bin Salman com o Ocidente passaram por altos e baixos, principalmente após o assassinato de Khashoggi. Embora tenha sido evitado por líderes mundiais após o episódio, ele manteve o apoio do então presidente dos EUA, Donald Trump, que considerava o príncipe um aliado essencial na região.

Quando Joe Biden assumiu a presidência em 2021, prometeu tornar a Arábia Saudita um “pária” internacional devido ao caso Khashoggi. No entanto, em 2022, com a guerra na Ucrânia e o aumento dos preços do petróleo, Biden reaproximou-se do líder saudita, reconhecendo sua influência na geopolítica global.

A Arábia Saudita tem se posicionado como intermediária em conflitos internacionais, mantendo um equilíbrio entre diferentes potências. O país enviou ajuda humanitária à Ucrânia, ao mesmo tempo em que fortaleceu laços com a Rússia.

Nesta semana, ao sediar reuniões entre representantes russos e americanos, o príncipe herdeiro demonstrou sua capacidade de reunir líderes globais para negociações. A movimentação irritou o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, que adiou uma visita planejada a Riad. Ainda assim, consolidou Mohammed bin Salman como um ator-chave na diplomacia internacional, ampliando sua influência para além do Oriente Médio.

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