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Fintech associada ao PCC enviou US$ 82,1 milhões para contas acusadas de financiar terrorismo

Por O Globo

A fintech 2Go Bank, alvo de operação deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Federal com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por suspeita de participação no esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), fez transações com carteiras de investimentos e contas digitais identificadas em uma ‘lista negra’ do Ministério da Defesa de Israel.

As autoridades israelenses emitiram um comunicado em junho de 2023 no qual são listadas 12 contas digitais e 39 carteiras de investimentos mantidos em uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo e que “seriam utilizadas para movimentação de criptomoedas com fins de perpetração do crime de terrorismo”.

Em comunicado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Banco Topázio reportou que a 2Go Bank, que àquele momento figurava como sua cliente, enviou US$ 82,1 milhões em ativos digitais para 15 carteiras de investimentos que aparecem no alerta do governo israelense.

De acordo com as investigações da Polícia Federal e do MP-SP, a 2Go Bank e a Invbank “constituíram engenharia financeira complexa” para permitir a lavagem de dinheiro do crime organizado, abrindo caminhos para que faccionados do PCC adquirissem imóveis de luxo. A operação das duas fintechs foi denunciada pelo delator Antonio Vinicius Gritzbach, assassinado em novembro, no Aeroporto de Guarulhos.

Gritzbach havia afirmado ao Ministério Público que a 2Go era ligada a Anselmo Becheli Santa Fausta, o “Cara Preta”, e a Rafael Maeda, o “Japa”, ambos integrantes do PCC que foram assassinados em 2021 — Gritzbach era suspeito de ter ordenado os dois homicídios, o que ele negava.

Como já mostrou o GLOBO, a 2Go foi fundada em 2020 pelo policial civil Cyllas Salerno Elia Júnior, à época lotado no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). O policial foi preso nesta terça-feira.

Os investigadores identificaram também transações feitas por “Cara Preta” com a Invbank que somam R$ 11 milhões. O valor consta na representação levada pelo Ministério Público à Justiça e se refere a três transferências realizadas entre outubro de 2021 e janeiro de 2022.

Para o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, o esquema envolvendo as fintechs mostra que o crime organizado se beneficia de “vácuos de fiscalização do próprio poder público” para lavar dinheiro.

O Coaf foi um dos órgãos que embasaram as investigações da operação desta terça-feira. O conselho atua no combate a crimes financeiros e pode ter a colaboração da Receita Federal, que é responsável por coibir fraudes fiscais. Ambos os órgãos têm a prerrogativa de acionar a Polícia Federal ou o Ministério Público caso se deparem com indícios de crimes.

No mês passado, o governo federal revogou uma instrução normativa que pretendia ampliar o escopo da fiscalização da Receita Federal após uma enxurrada de fake news associar a mudança a uma falsa taxação do Pix. Hoje, fintechs como a 2GO e a Invbank não têm a mesma obrigação que bancos tradicionais e cartórios de reportar movimentações ao órgão, o que diminui os caminhos para as autoridades identificarem irregularidades envolvendo essas empresas.

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