Mais da metade dos rios do Brasil está sob ‘pressão’ e com vazão em risco, aponta estudo

Pesquisa da USP, em parceria com cientistas internacionais, analisou 18 mil poços e revelou que 55,4% estão abaixo do nível dos riachos, indicando infiltração e risco de redução no fluxo dos rios

Por muito tempo, o Brasil foi considerado um dos países mais ricos em recursos hídricos. No entanto, um estudo recente publicado na revista “Nature Communications’ aponta que mais da metade dos rios brasileiros está perdendo água para o subsolo, o que pode comprometer sua vazão e afetar tanto o abastecimento humano quanto os ecossistemas aquáticos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos e analisou dados de 17.972 poços em todo o território nacional. Os resultados mostraram que 55,4% desses poços apresentam níveis de água subterrânea abaixo da superfície dos riachos mais próximos. Isso indica que a água dos rios está se infiltrando no subsolo, comprometendo sua vazão e podendo levar ao esgotamento progressivo desses corpos d’água.

Entenda o fenômeno

A infiltração é o processo pelo qual a água penetra no solo e se desloca para camadas subterrâneas, abastecendo os lençóis freáticos. Esse fenômeno ocorre de forma natural e desempenha um papel essencial no ciclo hidrológico, regulando o fluxo de água nos ecossistemas e garantindo a disponibilidade hídrica a longo prazo. A taxa de infiltração varia de acordo com o tipo de solo, sua permeabilidade e a presença de vegetação, que pode facilitar ou dificultar a absorção da água.

Quando a infiltração ocorre de maneira equilibrada, ela contribui para a recarga dos reservatórios subterrâneos e auxilia na manutenção do fluxo dos rios em períodos de estiagem. No entanto, quando a retirada de água subterrânea é excessiva, o lençol freático pode se tornar mais profundo, levando os rios a perderem água para o subsolo em um processo conhecido como percolação reversa. Esse desequilíbrio pode resultar na redução da vazão dos rios e no comprometimento dos ecossistemas aquáticos.

Fatores como o desmatamento e a compactação do solo também influenciam a infiltração da água. A retirada da cobertura vegetal reduz a capacidade do solo de absorver a água das chuvas, aumentando o escoamento superficial e diminuindo a recarga dos lençóis freáticos. Além disso, solos compactados por atividades agrícolas ou urbanização dificultam a penetração da água, agravando ainda mais o problema.

Outro aspecto importante é que a infiltração pode influenciar diretamente a qualidade da água subterrânea. Em regiões onde há contaminação do solo por agrotóxicos, esgotos ou resíduos industriais, essas substâncias podem ser transportadas para o lençol freático junto com a água infiltrada, tornando-se uma ameaça à segurança hídrica. Por isso, a gestão adequada dos recursos hídricos deve levar em conta tanto a quantidade quanto a qualidade da água infiltrada.

A infiltração que ameaça os rios

O fenômeno identificado pelo estudo é conhecido como “perda de vazão” ou “rios perdedores”. Em situações normais, a interação entre rios e lençóis freáticos ocorre de forma equilibrada, com os rios tanto alimentando o subsolo quanto recebendo contribuições das águas subterrâneas.

Reservatório da represa de Itaparica, no rio São Francisco — Foto: Nasa/Wikimedia Commons
Reservatório da represa de Itaparica, no rio São Francisco — Foto: Nasa/Wikimedia Commons

No entanto, quando a exploração dos poços subterrâneos é excessiva, a tendência é que a água dos rios seja drenada para o subsolo, reduzindo sua vazão e, em casos extremos, levando ao desaparecimento de pequenos cursos d’água.

Essa dinâmica foi observada em diversas regiões do Brasil, com destaque para as áreas mais áridas e aquelas de intensa atividade agrícola. O estudo revelou que 69% dos rios perdedores estão localizados nessas áreas, onde a retirada de água subterrânea para irrigação é mais frequente.

As regiões mais afetadas

A bacia do rio São Francisco é um dos exemplos mais preocupantes: 61% dos rios analisados na região apresentam risco de perda de vazão devido à infiltração. O problema é ainda mais grave no rio Verde Grande, afluente do São Francisco, onde até 74% dos cursos d’água podem ser impactados. Esses números demonstram a urgência de repensar a gestão dos recursos hídricos na região.

Outro ponto crítico é a região conhecida como Matopiba (acrônimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), uma das principais fronteiras agrícolas do Brasil. Com a expansão da agricultura irrigada, o uso da água subterrânea aumentou significativamente, intensificando o risco de esgotamento dos rios.

A diminuição da vazão dos rios pode gerar um efeito cascata sobre o meio ambiente e a população. Entre os impactos mais preocupantes estão:

  • Menor disponibilidade de água para consumo humano: Com menos água nos rios, cidades e comunidades que dependem dessas fontes podem enfrentar dificuldades de abastecimento.
  • Alterações nos ecossistemas aquáticos: Muitos peixes e outros organismos dependem da vazão constante dos rios para sobreviver. A perda de água pode levar à morte desses organismos e desequilibrar o ecossistema.
  • Afundamento do solo: O uso excessivo da água subterrânea pode provocar o afundamento do solo, causando danos às infraestruturas urbanas e rurais.
  • Risco de colapso de superfícies: Em algumas regiões, a retirada excessiva de água subterrânea pode levar ao colapso do solo, formando crateras e rachaduras.

O que pode ser feito?

Os cientistas destacam que a solução para evitar o agravamento desse cenário passa pela integração da gestão das águas superficiais e subterrâneas. É essencial que haja um monitoramento constante dos poços e dos níveis dos rios para garantir que a retirada de água subterrânea não ultrapasse os limites sustentáveis.

Além disso, é necessário incentivar práticas de uso eficiente da água na agricultura, como sistemas de irrigação que reduzam o desperdício. O investimento em pesquisas e em tecnologias que permitam um melhor gerenciamento dos recursos hídricos também é crucial para evitar que a situação piore nos próximos anos.

Sem medidas concretas, os rios brasileiros podem continuar a perder vazão, colocando em risco não apenas o abastecimento de água, mas também a biodiversidade e a segurança hídrica do país.