O ano de 2024 foi marcado por uma devastação sem precedentes da vegetação global, com incêndios florestais se tornando a principal força motriz da perda de florestas tropicais. Dados recentes revelam que o planeta perdeu cobertura florestal em níveis recordes, impulsionado por queimadas intensas em diversas regiões.
O levantamento é da plataforma Global Forest Watch (GFW), vinculada à organização WRI (World Resources Institute), com base em análises do laboratório GLAD, da Universidade de Maryland, nos EUA.
Pela primeira vez desde 2002, quando o monitoramento passou a ser realizado, o fogo superou atividades agropecuárias como fator predominante na destruição de florestas tropicais, sendo responsável por cerca de 50% do desmatamento detectado. Anteriormente, essa participação era de aproximadamente 20%.
O Brasil, detentor da maior extensão de florestas tropicais do planeta, mais uma vez liderou o ranking global de devastação em 2024, concentrando 42% da destruição de florestas tropicais primárias.
As chamas atingiram proporções alarmantes não só nas regiões tropicais, mas também em zonas boreais, com áreas extensas em países como Canadá e Rússia sendo duramente afetadas. No território brasileiro, a situação se agravou devido à intensa seca que atingiu o país, levando o fogo a ser responsável por 66% da perda florestal registrada — um salto quase seis vezes maior em relação ao ano anterior.
Outros fatores, como a expansão de áreas para cultivo de soja e criação de gado, também contribuíram para o desmatamento no Brasil, que teve aumento de 13% na perda de florestas primárias não relacionada a incêndios. Apesar do agravamento recente, os números ainda estão abaixo dos registrados no início dos anos 2000 e do período do governo Bolsonaro.
Mariana Oliveira, diretora do programa de florestas e uso da terra do WRI Brasil, avaliou que houve avanços sob a atual gestão federal, mas advertiu sobre a continuidade dos riscos. “Sem ações firmes em prevenção de incêndios, fiscalização ambiental eficaz e políticas de uso sustentável da terra, os progressos obtidos podem se perder”, destacou.
Ela também ressaltou que, com o Brasil prestes a sediar a COP30 em Belém (PA), o país tem a chance de reforçar sua liderança ambiental no cenário internacional.
A devastação se estendeu por diversos biomas brasileiros. A Amazônia teve seu maior índice de perda florestal desde 2016, enquanto o Pantanal sofreu a maior redução de cobertura arbórea entre todos os biomas nacionais.
O total de floresta tropical primária destruída globalmente alcançou 6,7 milhões de hectares em 2024 — quase o dobro do que foi registrado no ano anterior. Desse total, 2,8 milhões de hectares foram perdidos apenas no Brasil, sendo que 1,8 milhão devido a incêndios. Essa área equivale a cerca de 18 campos de futebol sendo devastados a cada minuto.
Elizabeth Goldman, codiretora do Global Forest Watch, descreveu a situação como inédita: “Nunca registramos um nível de perda florestal tão extremo em mais de duas décadas de monitoramento”. Para ela, o cenário representa um “alerta vermelho” que exige ação imediata de governos, empresas e indivíduos.
Boa parte dos incêndios em florestas tropicais, segundo os especialistas, tem origem em atividades humanas. Queimadas em áreas agrícolas, muitas vezes usadas como técnica para preparo do solo, acabam se espalhando para florestas adjacentes.
As condições climáticas extremas de 2024, exacerbadas pelo aquecimento global e pelo fenômeno El Niño, contribuíram para que os incêndios se alastrassem com maior intensidade e se tornassem mais difíceis de conter. O ano também foi reconhecido como o mais quente da história, ultrapassando pela primeira vez a marca de 1,5°C de aquecimento em relação ao período pré-industrial.
Além das queimadas, houve um crescimento de 14% nas perdas de florestas tropicais primárias por causas diversas — a maior alta desde 2016. Esses eventos agravaram impactos na saúde pública, na biodiversidade e nas emissões de gases do efeito estufa.
Estimativas apontam que os incêndios de 2024 liberaram cerca de 4,1 gigatoneladas de dióxido de carbono, volume mais de quatro vezes superior ao das emissões causadas por todos os voos comerciais realizados em 2023. Os efeitos colaterais incluem piora na qualidade do ar, comprometimento dos recursos hídricos e ameaças diretas à vida de milhões de pessoas.
Peter Potapov, codiretor do laboratório GLAD, alertou para os riscos de continuidade desse padrão: “Se a tendência persistir, áreas naturais essenciais podem ser alteradas de forma permanente, agravando a crise climática e alimentando novos incêndios.”
A América Latina também viu outros países enfrentarem crises ambientais severas. A Bolívia, por exemplo, registrou uma alta de 200% na destruição de florestas primárias, alcançando 1,5 milhão de hectares e superando pela primeira vez a República Democrática do Congo, que possui área florestal significativamente maior.
Mais da metade dessa perda em solo boliviano foi causada por queimadas, muitas delas iniciadas para abrir espaço à agricultura e à pecuária. A situação foi agravada pela estiagem prolongada e por políticas públicas que incentivam a expansão de áreas produtivas.
Na África, tanto a República Democrática do Congo quanto a República do Congo registraram níveis inéditos de devastação florestal.
No sudeste asiático, porém, surgiram alguns sinais de progresso. A Indonésia conseguiu reduzir em 11% a perda de cobertura florestal, revertendo os aumentos recentes. Já a Malásia, com queda de 13%, saiu pela primeira vez do grupo dos dez países que mais perdem floresta tropical primária no mundo.