Dólar recua para R$ 5,649 em meio a atenções voltadas à política comercial dos EUA

A semana segue marcada pela expectativa de novos acordos comerciais liderados por Trump

O dólar iniciou o dia operando próximo da estabilidade nesta quarta-feira (21), mas passou a cair levemente à medida que os mercados globais demonstravam cautela frente à situação fiscal dos Estados Unidos. A menor confiança em ativos americanos contribuiu para o movimento de venda da moeda no mercado internacional.

Sem grandes eventos no cenário econômico nacional, os investidores voltaram suas atenções às decisões comerciais do governo de Donald Trump, bem como às discussões sobre o endividamento público dos EUA.

Às 11h54, a moeda americana apresentava desvalorização de 0,32%, sendo negociada a R$ 5,649. Na sessão anterior, havia encerrado o dia com valorização de 0,23%, cotada a R$ 5,667. No mesmo horário, o principal índice da Bolsa brasileira registrava queda de 1,13%, aos 138.521 pontos, após ter superado os 140 mil pontos no fechamento de terça-feira. O desempenho refletia o contraste entre o avanço dos preços de commodities como petróleo e minério de ferro e o recuo nos índices futuros das bolsas dos EUA.

A semana segue marcada pela expectativa de novos acordos comerciais liderados por Trump. Na sexta-feira (16), o ex-presidente afirmou que as próximas duas a três semanas trarão definições sobre tarifas de importação. Segundo ele, os secretários do Tesouro, Scott Bessent, e do Comércio, Howard Lutnick, irão comunicar diretamente os termos comerciais a diversos países.

Trump mencionou que haverá “equilíbrio” nas decisões, mas sinalizou que nem todos os interessados em acordos serão atendidos. Estimou que cerca de 150 países buscam algum tipo de negociação com os Estados Unidos, embora não tenha especificado quais.

Essa postura representa uma suavização do tom mais agressivo adotado no início de abril, quando o governo anunciou uma política de tarifas “recíprocas”, provocando reações negativas nos mercados globais e receios de retração econômica internacional. Com o agravamento da volatilidade nos índices de Wall Street e a consequente pressão sobre o dólar, Trump suspendeu temporariamente a medida por 90 dias para reabrir negociações com parceiros comerciais.

Atualmente, estão em curso conversas com nações como Japão, Coreia do Sul, Índia e União Europeia. O Reino Unido firmou recentemente um pacto comercial, enquanto a China concordou com uma trégua temporária.

O plano tarifário foi inicialmente defendido como uma medida para reduzir o déficit fiscal norte-americano. Porém, uma proposta de reforma tributária impulsionada por Trump, se aprovada, pode ampliar substancialmente a dívida do país.

Na terça-feira, o ex-presidente esteve no Capitólio em busca de apoio para seu projeto orçamentário. Entretanto, o texto encontra resistência dentro do próprio Partido Republicano. Alguns membros da Câmara dos Deputados têm expressado oposição ao conteúdo da proposta, o que pode dificultar sua aprovação.

Trump reconheceu os desafios internos, mas demonstrou confiança de que a medida será aprovada. “Nosso partido está fortemente unido”, declarou a jornalistas ao chegar ao Congresso.

A proposta em debate visa estender os cortes de impostos realizados durante o mandato anterior, além de introduzir isenções fiscais para rendimentos oriundos de gorjetas e horas extras — itens que fizeram parte de suas promessas eleitorais.

Segundo estimativas de especialistas, a nova política pode adicionar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões à dívida pública, que já ultrapassa US$ 36 trilhões.

O clima fiscal nos EUA influenciou os mercados. “A elevação dos rendimentos dos títulos do Tesouro com vencimento em dez anos e o aumento da aversão ao risco, comuns em momentos como este, acabam impactando economias emergentes. Ainda assim, a reação nesta sessão foi moderada”, explicou André Valério, economista do Inter.

Outro fator que pressionou os mercados foi o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos pela Moody’s, que reduziu a classificação do país de Aaa para Aa1 na última sexta-feira. A agência justificou a decisão apontando para a expectativa de aumento nos déficits fiscais, que podem atingir 9% do PIB até 2035, frente aos 6,4% de 2024, impulsionados por juros elevados e baixa arrecadação.

Esse rebaixamento aprofundou a insegurança entre os investidores, levando à saída de recursos de ativos como dólar e títulos públicos americanos, os chamados treasuries.

Leonel Mattos, analista da StoneX, afirma que o temor de que o governo norte-americano não consiga reequilibrar as contas públicas tem levado investidores a buscarem alternativas fora dos EUA. “Essa percepção beneficiou ativos considerados mais arriscados no mercado internacional”, pontuou.

No cenário brasileiro, o destaque do dia foi a postura do Banco Central. O presidente da instituição, Gabriel Galípolo, afirmou que as próximas decisões sobre a taxa básica de juros dependerão da evolução dos indicadores econômicos. “Agora é hora de pensar em como reagir, não em o que fazer”, declarou, sinalizando cautela na condução da política monetária.

Entre as empresas listadas na B3, o setor de educação sofreu forte desvalorização após a divulgação de um novo marco regulatório para o ensino a distância (EaD). Cogna caiu 7,79% e YDUQS despencou 50,7%. Fora do Ibovespa, Anima recuou 8,39%, enquanto Ser Educacional avançou 2,44%.

No campo positivo, empresas do agronegócio se destacaram. A JBS subiu 4,79% com a proximidade da votação sobre listagem dupla de ações. Marfrig avançou 4,31%, BRF ganhou 2,44% e Minerva, 0,58%. Já a Vale manteve estabilidade, com leve alta de 0,05%, e as ações da Petrobras registraram variações discretas: 0,37% para as preferenciais e 0,14% para as ordinárias.