Ministro afirma que Tuta está isolado e sem contato com cúpula do PCC

A prisão ocorreu na última sexta-feira (17), em Santa Cruz de la Sierra, por meio de uma operação conjunta da Polícia Federal brasileira com a Fuerza Especial de Lucha Contra el Crimen (FELCC) da Bolívia

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou nesta segunda-feira (19) que não há qualquer possibilidade de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, estabelecer comunicação com outras lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC) que cumprem pena no presídio federal de Brasília, incluindo Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Detido recentemente na Bolívia e entregue à Polícia Federal na cidade de Corumbá (MS), Tuta foi imediatamente transferido para a penitenciária de segurança máxima na capital do país.

— A unidade de Brasília está entre as mais seguras do sistema federal. Não há chance de contato com outros detentos da facção. A estrutura e o protocolo de isolamento impedem esse tipo de comunicação — afirmou o ministro, em entrevista coletiva no Ministério da Justiça.

Lewandowski classificou a captura de Tuta como um marco no combate ao crime organizado e um reflexo positivo da articulação entre países sul-americanos. O narcotraficante, por muitos anos apontado como um dos principais nomes do PCC fora da cadeia, havia sido incluído na Difusão Vermelha da Interpol desde 2020.

A prisão ocorreu na última sexta-feira (17), em Santa Cruz de la Sierra, por meio de uma operação conjunta da Polícia Federal brasileira com a Fuerza Especial de Lucha Contra el Crimen (FELCC) da Bolívia. O criminoso utilizava documentos com identidade falsa no nome de “Maicon da Silva” para tentar regularizar sua situação no país vizinho. Segundo a PF, os papéis eram autênticos no formato, mas continham informações falsas — o que os tornava legalmente inválidos.

O processo de identificação foi possível graças ao cruzamento de dados biométricos mantidos pela PF e pela Interpol. De acordo com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a verificação foi feita praticamente em tempo real.

— O uso da base biométrica internacional nos deu a capacidade de identificar Tuta de forma rápida e inequívoca, possibilitando sua prisão pelas autoridades bolivianas — explicou Rodrigues. A ação contou também com o apoio do secretário-geral da Interpol, Valdecy Urquiza, que destacou a eficiência do chamado “hub biométrico” no reconhecimento de indivíduos com identidade forjada.

Com condenações no Brasil que somam 12 anos de prisão por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e envolvimento com organização criminosa, Tuta ocupava um papel estratégico dentro do PCC. Durante anos, foi apontado como braço operacional de Marcola, responsável por comandar as ações da facção fora dos presídios.

Segundo o Ministério Público de São Paulo, ele chegou a ser o principal responsável por decisões financeiras da organização e chegou a articular ataques contra autoridades. Também teria planejado, em 2019, uma tentativa de resgate de Marcola do sistema penitenciário federal, que acabou frustrada.

Codinomes como “Angola”, “Gringo”, “Africano”, “Tá Bem” e “Marquinhos” eram utilizados por Tuta em diferentes momentos. Mesmo após perder espaço na hierarquia da facção nos últimos anos, ainda mantinha influência significativa em atividades da organização.

Antes de ser novamente capturado, Tuta já havia cumprido parte de uma pena anterior de mais de 23 anos por crimes como latrocínio, roubo, sequestro, falsidade ideológica e corrupção ativa. Detido em 2006, conseguiu progressão para o regime aberto em 2014, período em que retomou atividades ilícitas.

Nos últimos anos, a Polícia Federal e o Ministério Público realizaram diversas operações ligadas ao traficante, incluindo a Operação Sharks, que em 2023 mirou os operadores financeiros da facção e identificou a estrutura usada por Tuta para movimentar dinheiro sujo por meio de terceiros e empresas de fachada.