Em uma sessão de tribunal, a juíza e a advogada de defesa se desentendem. No entanto, o foco da discussão não é o que se espera em julgamentos – trata-se de um debate sobre botox e preenchimento.
No meio disso, a testemunha se vê forçada a ouvir a advogada citar mensagens que discutem questões irrelevantes relacionadas a cuidados com a pele, prolongando ainda mais o andamento da sessão. A juíza, com uma postura educada, mas firme, intercede, marcando o tom para o julgamento que resultaria na condenação da deputada e pastora Flordelis, acusada de encomendar o assassinato de seu marido.
Inicialmente previsto para 9 de maio de 2022, o julgamento enfrentou diversos adiamentos e só teve início efetivo em 7 de novembro do mesmo ano. Este período de sete dias é o centro de “O Julgamento de Flordelis: A História de uma Família Brasileira”, escrito por Paulo Sampaio, um jornalista com 62 anos e uma carreira de quatro décadas.
Sampaio acompanhou de perto todas as sessões nas quais cinco réus foram julgados e 24 testemunhas prestaram depoimento, com a acusação sendo representada por três promotores e três advogados de defesa. “Era uma verdadeira batalha de palavras”, lembra o autor em entrevista. Com passagens por grandes redações como Folha, O Estado de S. Paulo e UOL, ele aborda o caso com a experiência de quem já esteve presente em coberturas diversas, de eventos sociais a grandes eventos esportivos.
Para a criação do livro, Sampaio dedicou dois anos e meio de pesquisa, com o destaque de ter lido as 43 mil páginas do processo. Durante esse tempo, frequentou o tribunal e entrevistou cerca de 40 pessoas envolvidas no caso, exceto a própria Flordelis, que, segundo ele, havia firmado um contrato de exclusividade com a HBO para uma série sobre sua história, recebendo R$ 400 mil por isso.
Apesar da ausência da pastora, o foco principal do livro é o julgamento e o “teatro do júri criminal”, que é o verdadeiro cenário abordado. O assassinato de Anderson do Carmo, pastor de 42 anos e marido de Flordelis, ocorrido em 16 de junho de 2019, em Niterói, é o tema central do julgamento. Inicialmente, Flordelis tentou convencer a polícia de que seu marido havia sido vítima de um latrocínio, mas logo a versão foi descartada.
Após menos de 48 horas do crime, dois filhos de Flordelis foram presos e, ao final da semana, ela foi identificada como a responsável intelectual pelo assassinato, resultando em seu julgamento e a perda do cargo de deputada.
No livro de quase 500 páginas, Sampaio descreve minuciosamente o que ocorreu tanto no tribunal quanto nas áreas adjacentes, incluindo o restaurante onde os envolvidos costumavam almoçar. Ele detalha a atmosfera do julgamento, as ações e até as roupas dos advogados, além de abordar as características das testemunhas e dos réus.
Flordelis, uma figura antes imponente, aparece de forma muito diferente do que seus seguidores estavam acostumados. Quando se apresenta ao tribunal, suas palavras soam exageradas e suas emoções, muitas vezes, duvidosas. Em um momento, até mesmo um jurado questiona a autenticidade de suas lágrimas.
Diferente de outras obras sobre o caso, “O Julgamento de Flordelis” não foca nas cenas sangrentas, mas sim nas dinâmicas humanas e nos aspectos do tribunal, revelando as emoções, os dramas e até os problemas técnicos que marcaram o julgamento. A história, afirma o autor, é tão extraordinária que, por vezes, ultrapassa qualquer ficção.
O livro, com quase 500 páginas, oferece uma análise profunda do caso, trazendo à tona não apenas os eventos do julgamento, mas também as falhas e as complexidades do sistema judiciário, proporcionando uma visão única sobre a justiça e as pessoas envolvidas no caso.