Com o lema em latim “In Illo unum uno” — que traduzido significa “No único Cristo, somos um” — o cardeal Robert Francis Prevost, natural de Chicago e com 69 anos de idade, tornou-se o novo líder da Igreja Católica, adotando o nome de Leão 14. A escolha foi anunciada após o tradicional sinal da fumaça branca na Capela Sistina, sob olhares atentos da multidão reunida na Praça São Pedro. Com sua eleição, o conclave surpreende ao apontar, pela primeira vez na história, um pontífice vindo dos Estados Unidos.
Diante dos fiéis, já na sacada da Basílica de São Pedro, o novo papa — identificado com tendências progressistas — prestou homenagem ao seu antecessor, Francisco, e defendeu uma Igreja mais sinodal. “O mal não triunfará. Estamos todos sob os cuidados do Senhor”, afirmou. Ele ainda conclamou os católicos a atuarem como pontes de reconciliação: “Sigamos adiante como discípulos de Cristo. O mundo necessita de sua luz. A humanidade clama por Ele. Sejamos instrumentos de unidade e paz por meio do diálogo”.
Durante sua fala, Leão 14 fez questão de se referir ao Papa Emérito, mencionando também sua identidade religiosa: “Sou agostiniano, filho de Santo Agostinho, que dizia: ‘Com vocês, cristão; para vocês, bispo’”. Parte do discurso foi em espanhol, idioma que domina por ter vivido duas décadas no Peru, onde desempenhou trabalho missionário a partir dos anos 1980.
A decisão do conclave encerrou as especulações sobre um possível retorno do papado à Europa — em especial à Itália. O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e nome forte da Cúria, era apontado como favorito. Com a escolha de Prevost, mantém-se a tendência de descentralização iniciada com Francisco, primeiro papa latino-americano.
Prevost nasceu em 14 de setembro de 1955, ingressando na Ordem de Santo Agostinho em 1977. Quatro anos depois, professou seus votos perpétuos. Possui formação em Matemática pela Universidade Villanova, mestrado em Teologia pela Catholic Theological Union, em Chicago, e doutorado em Direito Canônico obtido no Colégio Pontifício de Santo Tomás de Aquino, em Roma.
Conhecido por sua postura mais progressista em comparação a outros cardeais norte-americanos — frequentemente associados a visões conservadoras — Prevost assumiu papéis importantes durante o pontificado de Francisco. Presidiu o Dicastério para os Bispos e também liderou a Comissão Pontifícia para a América Latina, posições que refletiram sua proximidade com o papa argentino.
Contudo, seu histórico não é isento de polêmicas. Em 2000, permitiu que o padre James Ray — acusado de abuso sexual infantil — vivesse em um priorado próximo a uma escola em Chicago, sem notificar a instituição. Além disso, segundo o canal peruano TV América, quando era bispo em Chiclayo, teria encerrado investigações contra dois sacerdotes acusados de abusar de três meninas.
Embora os Estados Unidos tenham maioria protestante, o país conta com a quarta maior população católica do planeta, atrás apenas de Brasil, México e Filipinas, com cerca de 85 milhões de fiéis. Também ocupa posição de destaque no Colégio Cardinalício, com dez cardeais — atrás apenas da Itália.
Apesar desse peso, nunca antes um norte-americano havia sido considerado um dos favoritos em um conclave. A ascensão de Prevost representa, portanto, uma quebra de tradição.
A eleição do novo papa ocorre num momento delicado nas relações entre o Vaticano e Washington. Durante o papado de Francisco, houve atritos com Donald Trump, que voltou à cena política com declarações controversas. Após a escolha do novo pontífice, Trump comemorou nas redes: “Que honra para os Estados Unidos”.
Curiosamente, pouco antes da morte de Francisco, o então papa se reuniu com o vice-presidente J. D. Vance — católico convertido em 2019. O encontro aconteceu no Domingo de Páscoa e tratou de temas como imigração e refugiados, justamente áreas onde o Vaticano divergia da política americana.
Trump, por sua vez, teve diversos embates com Francisco. Em 2016, o então papa criticou duramente a proposta de erguer um muro na fronteira com o México, dizendo que “quem constrói muros não é cristão”. A frase foi lembrada no funeral de Francisco pelo cardeal Giovanni Battista Re.
A relação tensa entre os dois governos tem raízes antigas. Em 2003, durante a Guerra do Iraque, o embaixador dos EUA junto à Santa Sé criticou a oposição do Vaticano ao conflito, alegando que a Igreja não compreendia que medidas como as tomadas contra Hitler deveriam ter sido feitas precocemente.
Vale lembrar que as relações diplomáticas entre os EUA e o Vaticano ficaram interrompidas por mais de um século — de 1867 até 1984. Somente com o presidente Ronald Reagan e o papa João Paulo 2º, as conexões formais foram restabelecidas.