O governo do Brasil analisa a possibilidade de adquirir reatores nucleares flutuantes para fornecimento de energia na região amazônica. A proposta vem da estatal russa Rosatom, que tem intensificado sua presença no país por meio de cooperações no setor atômico.
Esse interesse brasileiro surge em meio a um esforço mais amplo de aproximação com Moscou, incluindo a recente parceria para exploração conjunta de urânio na jazida de Caetité, localizada no interior da Bahia. Ivan Dibov, representante da Rosatom para a América Latina, reforçou o desejo de expandir essa colaboração: “Nosso objetivo é aprofundar os laços já estabelecidos com o Brasil”.
A empresa russa é referência mundial na produção de reatores compactos, conhecidos como SMR (sigla em inglês para Reator Modular Pequeno), que têm capacidade energética inferior à de grandes usinas, mas ocupam menos espaço e são mais adaptáveis. Em 2020, a Rosatom foi responsável pela implantação da primeira central flutuante em operação no planeta, instalada em uma embarcação chamada “Acadêmico Lomonosov”.
Apesar das críticas de ambientalistas — que apelidaram a usina de “Tchernóbil sobre as águas” —, a instalação substituiu estruturas antiquadas e poluentes no Ártico russo, funcionando até hoje sem incidentes. Ainda assim, organizações como o Greenpeace continuam a apontar riscos significativos à segurança e ao meio ambiente.
No Brasil, a proposta foi bem recebida. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que os reatores de pequeno porte podem ser uma alternativa confiável para fornecer energia em áreas de difícil acesso, como na floresta amazônica. “Estamos mantendo conversas técnicas produtivas com a Rosatom”, comentou.
A implementação, no entanto, exige aprovação internacional. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) precisaria autorizar o projeto, como fez com a instalação russa, que levou uma década para ser regulamentada. A Rosatom projeta a instalação de 12 reatores na Amazônia até 2035, gerando 0,6 GW. Outros 10 reatores podem ser destinados à costa nordestina, para fornecer mais 0,5 GW — volume equivalente à metade da capacidade nuclear brasileira atual.
Ainda não há definição sobre os custos. Dibov estima que a construção de um reator leve entre dois e três anos, dependendo da demanda total. A primeira usina flutuante russa, iniciada com orçamento de US$ 340 milhões, acabou ultrapassando US$ 870 milhões com os ajustes ao longo do tempo.
O governo brasileiro também vislumbra o uso de pequenos reatores para suprir locais com alto consumo energético, como datacenters e indústrias intensivas em energia.
Na Amazônia, o desafio é único. Apesar da presença de grandes hidrelétricas, muitos municípios ainda são isolados do sistema interligado nacional e dependem de geradores a diesel — ou, no caso de Roraima, de energia vinda da Venezuela. Isso contrasta com a matriz elétrica do país, majoritariamente renovável (85%), onde a energia nuclear representa apenas 1,2%.
Desde sua chegada ao Brasil em 2015, a Rosatom assinou acordos menores com foco na produção de isótopos para a medicina nuclear. Em 2023, no entanto, a estatal russa venceu duas licitações para fornecer urânio enriquecido à usina de Angra, em contrato estimado em US$ 140 milhões.
Embora o Brasil tenha domínio técnico do ciclo de enriquecimento do urânio e possua a sétima maior reserva mundial, o país ainda envia o minério parcialmente processado ao exterior, onde é convertido em gás e enriquecido antes de retornar como combustível nuclear.
Esse domínio tecnológico está no centro das disputas geopolíticas envolvendo países como Israel e Irã, pois o enriquecimento pode variar entre o uso civil (como o contrato brasileiro com 4,25%) e fins bélicos (acima de 80%).
A aproximação com os russos ganhou força ainda durante o governo Bolsonaro e se consolidou com o presidente Lula, que reforça os laços com os demais membros do BRICS. O Brasil, antes disso, dependia do Canadá — membro da OTAN — para parte do fornecimento.
A Rosatom, por sua vez, afirma não estar envolvida no projeto do submarino nuclear brasileiro, apesar das especulações sobre o tema. Dibov reitera que a empresa se destaca por oferecer “a melhor solução técnica com preços competitivos”, sem, no entanto, divulgar os valores.
Em março, a estatal fechou um contrato de US$ 40 milhões com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para levar 275 mil quilos de urânio natural da Bahia até 2027, com a devolução do combustível já enriquecido. A empresa também mira outras regiões ricas em urânio, como a Namíbia e a Tanzânia, buscando diversificar fornecedores frente a incertezas globais — atualmente, 40% do consumo russo depende de importações, sobretudo do Cazaquistão.
Em 2022, a Rosatom ainda disputava a finalização da usina de Angra 3, cujas obras estão inacabadas há anos. Segundo Dibov, a empresa mantém interesse, mas dá prioridade a projetos com seus próprios reatores. “Se o Brasil decidir concluir Angra 3, estamos prontos para conversar. Mas nosso foco imediato está em levar soluções novas ao país”, afirmou.
Ele ainda destaca que reatores nucleares são uma ferramenta importante para o Brasil alcançar metas de redução de emissões, defendendo o uso da energia atômica como opção limpa dentro da transição energética global. A própria AIEA apoia essa visão e, recentemente, o Banco Mundial retirou a restrição ao financiamento de projetos nucleares, abrindo caminho para o uso de pequenos reatores ao redor do mundo.