Chuva contaminada: estudo encontra agrotóxicos em gotas d’água em SP

A pesquisa coletou amostras entre agosto de 2019 e setembro de 2021 em áreas com diferentes usos do solo

Uma investigação conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que a água da chuva em São Paulo, Campinas e Brotas contém resíduos químicos de diversos agrotóxicos — incluindo substâncias que já foram proibidas no Brasil por apresentarem riscos graves à saúde humana, como potencial cancerígeno.

A pesquisa coletou amostras entre agosto de 2019 e setembro de 2021 em áreas com diferentes usos do solo. Em todas elas, foram encontrados vestígios de pesticidas. Em destaque, o herbicida atrazina, identificado em 100% das amostras, e o fungicida carbendazim, banido no país, mas ainda presente em 88% das coletas. O tebuthiuron, outro herbicida, foi detectado pela primeira vez em chuvas e apareceu em 75% das amostras.

A investigação mostra como partículas químicas presentes na atmosfera — seja em forma de gás ou fixadas nas partículas sólidas — acabam integrando as gotas de chuva e, assim, retornam ao solo em regiões urbanas e rurais. A dispersão pelo ar é um dos fatores que explicam como compostos utilizados em plantações chegam a áreas densamente povoadas, como a cidade de São Paulo.

O artigo científico com os resultados foi publicado em março na revista Chemosphere, sob o título (em tradução livre) “Pesticidas em águas da chuva: estudo de ocorrência de dois anos em compartimento ambiental inexplorado em regiões com diferentes usos do solo no estado de São Paulo – Brasil”.

Segundo a professora Cassiana Montagner, que orientou o trabalho, o estudo mostra que a contaminação ambiental por agrotóxicos tem maior alcance do que se pensava. Embora não haja um risco imediato em consumir pequenas quantidades dessas substâncias, a exposição prolongada pode trazer consequências graves à saúde de pessoas e animais.

“Se alguém beber um copo de água da chuva, haverá resíduos, mas o problema está na exposição constante, dia após dia”, explicou a pesquisadora. O mesmo nível de substâncias foi identificado anteriormente em rios e sistemas de abastecimento de água, o que indica que a contaminação atmosférica alcança múltiplas fontes de consumo.

A presença desses produtos nas chuvas é descrita pelos cientistas como uma “impressão digital” da forma como os agrotóxicos estão sendo utilizados nas regiões estudadas. Como os pesticidas podem ser transportados pelo vento a grandes distâncias, essa contaminação não está restrita aos locais de aplicação.

O estudo também detectou o herbicida 2,4-D com grande concentração na cidade de Brotas, conhecida por suas plantações de cana-de-açúcar. Essa substância tem forte capacidade de dispersão aérea e está relacionada a prejuízos à fertilidade. Em 2023, a Anvisa proibiu sua aplicação por via aérea, embora a pulverização no solo ainda seja permitida.

As amostragens — 19 em São Paulo, 17 em Campinas e 13 em Brotas — revelaram que todas as regiões estudadas continham pelo menos um contaminante.

Segundo Montagner, o monitoramento reforça que, enquanto o uso intensivo de pesticidas persistir, os mesmos compostos continuarão presentes na água da chuva, independentemente da localização geográfica. “Na região paulista, a cana-de-açúcar predomina, então encontramos mais resíduos usados nesse cultivo. Se fizermos esse levantamento no Mato Grosso, por exemplo, encontraremos resíduos comuns à soja”, afirmou.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo declarou que fiscaliza o uso de agrotóxicos por meio do Programa Estadual do Uso de Agrotóxicos e Afins, atuando especialmente em áreas agrícolas para garantir conformidade legal e promover práticas sustentáveis.

A nova legislação estadual sobre agrotóxicos entrou em vigor em março de 2024. Desde então, foram aplicadas 57 multas e outros 40 processos estão em análise. As punições financeiras são proporcionais ao impacto causado à saúde pública e ao meio ambiente.

Como a chuva é contaminada?
Agrotóxicos aplicados em plantações se dispersam no ar — com a ajuda de vento, umidade e temperatura. Quando encontram condições específicas, esses compostos se integram às gotas de chuva e retornam ao solo, atingindo até locais longe da lavoura.

Posso ser contaminado mesmo sem beber água da chuva?
Sim. A água da chuva alimenta rios e reservatórios que abastecem as cidades. Portanto, contaminantes atmosféricos acabam chegando à torneira.

Morar em cidade grande protege?
Não necessariamente. Como os pesticidas se espalham com o vento, áreas urbanas também são atingidas. Além disso, consomem a mesma água vinda de mananciais abastecidos por chuvas contaminadas.

A água tratada da torneira é segura?
Apesar de seguir limites legais, muitas das substâncias detectadas não têm parâmetros definidos. Ou seja, não se sabe qual é o nível seguro. A exposição prolongada, mesmo em doses pequenas, pode provocar efeitos cumulativos à saúde.