A recente derrota sofrida pelo governo no Congresso Nacional, com a derrubada dos decretos que previam o aumento das alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), representa um marco simbólico do enfraquecimento político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Especialistas em ciência política avaliam que esse episódio pode antecipar um cenário desafiador para o chefe do Executivo nas eleições presidenciais de 2026.
A derrubada dos decretos não foi um caso isolado. Ela se soma a uma sequência de desgastes que a gestão petista vem enfrentando ao longo do ano em sua relação com o Legislativo. O caso também marca o início de uma aliança entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), na condução de articulações que se contrapõem ao Palácio do Planalto.
Na Câmara, o projeto que anulava os decretos foi aprovado com ampla maioria: 383 votos favoráveis e 98 contrários, na quarta-feira (25). No Senado, a aprovação se deu de forma simbólica, sem contagem nominal de votos. Esse foi um acontecimento raro — não ocorria desde o governo de Fernando Collor, nos anos 1990 — e expõe a fragilidade do atual governo perante o Congresso.
A cientista política Beatriz Rey, professora da Universidade de São Paulo (USP), avaliou que a dificuldade de articulação política do governo tende a ter impactos sérios sobre a tentativa de reeleição de Lula. Para ela, a derrubada dos decretos evidencia um distanciamento entre os partidos e o Planalto, o que pode resultar em uma perda substancial de apoio em ano eleitoral.
Rey observa ainda que Lula tem demonstrado mais interesse em construir um legado de projeção internacional do que em consolidar uma base sólida para aprovar pautas de maior urgência interna. Na visão da pesquisadora, a relação do governo com o Congresso é instável em três frentes principais: a construção de coalizões, o diálogo com atores políticos e a abertura das Casas Legislativas ao debate com o Executivo.
Esse distanciamento, segundo analistas, é agravado pela queda na popularidade do presidente. Levantamento recente do Instituto Datafolha aponta que 40% do eleitorado desaprova a gestão de Lula — o pior índice de seus três mandatos —, enquanto apenas 28% aprovam sua atuação. A tendência, que indicava uma possível recuperação da imagem pública, parece ter sido interrompida.
Rey também destaca que a base aliada do governo é, na prática, pouco confiável. Embora 16 dos 19 partidos da coalizão sejam teoricamente governistas, cinco deles — de centro-direita, como União Brasil, PSD, MDB, Republicanos e PP — demonstram maior alinhamento com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado um potencial adversário de Lula em 2026. Esse desalinhamento político é apontado como uma das causas para as sucessivas derrotas no Legislativo.
Entre abril e maio, o governo acumulou pelo menos oito derrotas vindas de partidos que compõem sua base formal, incluindo o rompimento com setores do PDT e a aprovação de um projeto na Câmara que buscava limitar ações do Supremo Tribunal Federal relacionadas à tentativa de golpe.
Em fevereiro, o governo tentou reagir às dificuldades com mudanças na articulação política. O então ministro Alexandre Padilha (PT) deixou a Secretaria de Relações Institucionais, sendo substituído por Gleisi Hoffmann, até então presidente nacional do PT. Mesmo com essa mudança, os problemas persistiram.
O cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o Congresso demonstra crescente insatisfação com o governo, em meio à reforma ministerial inconclusa e à constante pressão por liberação de emendas parlamentares. Segundo ele, ocupar um ministério deixou de ser um trunfo relevante, já que hoje os parlamentares preferem direcionar recursos diretamente às suas bases eleitorais.
Teixeira aponta que a combinação entre baixa articulação e alta demanda por emendas tem gerado um efeito devastador sobre a governabilidade. Para ele, Lula chegará a 2026 com o apoio restrito à sua base histórica, sem conseguir repetir a formação de uma frente ampla.
O caso do IOF, na visão do professor, consolidou a deterioração do relacionamento entre Executivo e Legislativo. No início do ano, a relação com o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), era considerada positiva — Pacheco chegou a elogiar Lula publicamente pela sanção do projeto de renegociação das dívidas estaduais. Já com Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, o clima era de desconfiança, embora houvesse cumprimento de acordos até então. No episódio do IOF, isso não se confirmou.
Na avaliação de Teixeira, a única alternativa viável seria o próprio presidente assumir diretamente a tarefa de articulação política, já que os demais responsáveis por essa função não conseguiram entregas efetivas.