Assessores próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) projetam que sua atuação no encontro do G7 terá como foco a transição energética, evitando confrontos diretos com Donald Trump, representante dos Estados Unidos.
Lula participará de uma sessão específica do G7 destinada a países convidados que não integram o grupo de forma permanente. Entre os selecionados estão Brasil, África do Sul, Austrália, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Índia e México.
Donald Trump, enquanto líder de uma nação integrante do G7, também estará presente nessa reunião, prevista para a próxima terça-feira (17). Antes disso, na segunda (16), haverá programação em Kananaskis, na província canadense de Alberta, exclusiva aos membros fixos do grupo que reúne as economias mais industrializadas do planeta.
Não está prevista, até o momento, nenhuma agenda oficial entre Lula e Trump.
A possibilidade de o presidente brasileiro discursar diante de uma plateia da qual Trump fará parte é vista por alguns aliados como uma chance de Lula reforçar sua imagem de contraponto ao ex-presidente norte-americano — o que poderia ter efeitos políticos positivos em seu eleitorado.
Esse grupo acredita que Lula pode enviar mensagens indiretas que reforcem sua postura como liderança alternativa ao estilo trumpista, mesmo sem citar nomes.
Por outro lado, outro segmento do governo considera improvável que Lula adote um tom mais combativo, lembrando que em encontros anteriores do G7, o presidente brasileiro manteve uma postura diplomática. Em 2023, ele esteve em Hiroshima (Japão), e no ano seguinte, em L’Aquila (Itália).
Um exemplo citado é a presença de Javier Milei no encontro italiano, em que Lula optou por não direcionar críticas ao presidente argentino, apesar das diferenças entre os dois.
Naquele momento, Lula utilizou sua fala para destacar o papel do Brasil na presidência do G20, além de defender uma governança internacional voltada ao uso da inteligência artificial.
No encontro deste ano, a pauta proposta pelo governo canadense para a sessão com os países convidados está centrada na segurança energética. Entre os tópicos estão o abastecimento de minerais estratégicos — tema que desperta forte interesse de Trump — e a utilização da inteligência artificial como instrumento de desenvolvimento econômico.
Aliados indicam que o discurso de Lula deverá, necessariamente, abordar a matriz energética brasileira, tida como uma das mais sustentáveis do mundo, e defender que a emergência climática exige respostas articuladas globalmente, já que os efeitos das mudanças climáticas não respeitam fronteiras nacionais.
Assim como ocorreu no G7 anterior, em que Lula destacou as prioridades brasileiras no G20, a expectativa é que, neste ano, ele aproveite a ocasião para dar ênfase à COP30 — conferência climática da ONU que acontecerá em Belém, no mês de novembro.
Lula tem reiterado apelos à comunidade internacional para garantir ampla presença de chefes de Estado no evento. Recentemente, em conversa telefônica com o primeiro-ministro canadense Mark Carney, recebeu a confirmação de sua participação. Em contraste, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris.
Embora Lula tenha mencionado a intenção de telefonar para o ex-presidente americano com o objetivo de convencê-lo a comparecer à COP30, membros do governo avaliam como bastante improvável essa possibilidade.
Outro ponto que o presidente brasileiro vem enfatizando é a atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), metas nacionais de redução de emissões de carbono. Países do G7 como França, Alemanha e Itália ainda não atualizaram suas metas.
Para os que defendem uma abordagem menos personalizada, há meios de Lula marcar posição sem menções diretas. Entre eles, estão a valorização das instituições multilaterais e a rejeição de sanções unilaterais — medidas frequentemente associadas à política externa dos Estados Unidos sob Trump. Na visão desses conselheiros, um ataque direto poderia ser lido como provocação gratuita.
Ainda que evite nomes, Lula costuma abordar temas espinhosos em suas viagens internacionais que o distanciam politicamente do ex-presidente norte-americano.
Entre eles está a regulação das plataformas digitais — uma pauta promovida pelo governo brasileiro e enfrentada com resistência por grandes empresas de tecnologia com fortes ligações com Washington.
Outro tema recorrente é a crise no Oriente Médio. Lula tem sido enfático ao condenar a ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, classificando-a como “genocídio” contra os palestinos. Trump, por sua vez, é um aliado próximo de Binyamin Netanyahu e apoiou os ataques israelenses contra o Irã, iniciados na madrugada desta sexta-feira e prolongados ao longo do dia.
Fonte: (FOLHAPRESS)