Nesta segunda-feira, o governo de Donald Trump acusou formalmente a Universidade Harvard de violar a legislação federal de direitos civis ao não agir de maneira eficaz contra casos de assédio sofridos por estudantes judeus. A acusação foi feita por meio de uma carta enviada ao reitor interino, Alan Garber, assinada por autoridades de quatro agências federais. O documento sustenta que Harvard está infringindo o Título VI da lei federal, que proíbe discriminação por raça, cor ou origem nacional — interpretação que agora abrange ancestralidade e traços étnicos.
Segundo o governo, a postura institucional de Harvard, baseada em “hierarquias raciais”, teria criado um ambiente favorável à propagação do antissemitismo. O aviso foi direto: sem mudanças rápidas e eficazes, a universidade corre o risco de perder acesso a todos os recursos federais, comprometendo de forma duradoura sua relação com o Estado.
A universidade, por sua vez, refutou as alegações, alegando que combate o antissemitismo com ações concretas e não é omissa diante do problema. A disputa acontece em meio à tentativa de Harvard de manter o acesso a bilhões de dólares em financiamento federal, enquanto negocia com o governo um possível acordo — negociações marcadas por meses de tensão, litígios e declarações públicas duras.
O embate ganhou força após o ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023, e o consequente início da guerra em Gaza. A partir desse momento, a vivência de estudantes judeus passou a ser observada com mais rigor em Harvard. Em abril, um relatório interno apontou que muitos alunos judeus e israelenses relataram um ambiente hostil no ano letivo de 2023–2024. O próprio reitor Garber afirmou que a universidade “não tolerará qualquer forma de preconceito”.
Apesar disso, autoridades do governo, como Paula Stannard, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, classificaram as medidas da universidade como insuficientes. Em carta separada, Stannard afirmou que o assédio sofrido por estudantes judeus em Harvard tem sido sistemático desde 7 de outubro de 2023. Ela alertou que, sem colaboração voluntária da universidade, o caso será encaminhado ao Departamento de Justiça, ampliando o risco de corte nos repasses federais.
Harvard já enfrentou congelamentos bilionários em recursos, abalando sua reputação e estabilidade financeira. A ofensiva do governo inclui diversas ações, como a tentativa de restringir o ingresso de estudantes estrangeiros. Mesmo com uma postura pública de resistência e defesa da autonomia acadêmica, dirigentes da instituição temem os efeitos de um conflito prolongado com a Casa Branca.
Embora Harvard tenha retomado as negociações com o governo — que sofreu derrotas judiciais iniciais —, os diálogos são considerados delicados, pois a universidade evita demonstrar qualquer sinal de submissão. Os termos discutidos ainda não foram divulgados, mas Trump afirmou em sua rede social, em 20 de junho, que um eventual acordo “será histórico e benéfico ao país”. Ele também elogiou a postura da universidade durante o processo.
Além de Harvard, a Universidade Columbia também tem sido alvo da mesma abordagem. Em maio, o governo apresentou acusações semelhantes contra Columbia, que já havia sofrido corte de milhões em contratos e bolsas antes mesmo da conclusão da investigação.
Apesar de se posicionar como defensor do combate ao antissemitismo, o governo Trump vem ampliando seu alcance sobre universidades consideradas politicamente enviesadas. Um exemplo recente foi a renúncia forçada do reitor da Universidade da Virgínia, motivada por programas institucionais de diversidade, equidade e inclusão.