O Irã declarou, nesta sexta-feira (20), que não aceitará retomar qualquer diálogo sobre seu programa nuclear enquanto estiver sob bombardeio de Israel. Paralelamente, potências europeias intensificam esforços para convencer Teerã a reingressar em negociações diplomáticas, enquanto os Estados Unidos avaliam uma possível intervenção no confronto.
Em uma nova ofensiva noturna, as Forças Armadas israelenses atingiram dezenas de alvos militares em território iraniano, incluindo centros de produção de mísseis e um instituto de pesquisa associado ao desenvolvimento de armas nucleares, localizado na capital.
Como resposta, o Irã lançou mais uma sequência de mísseis na madrugada desta sexta, atingindo áreas residenciais, comerciais e industriais em Beersheba, no sul de Israel.
A presidência dos EUA declarou que o presidente Donald Trump tomará uma decisão nas próximas duas semanas sobre o eventual envolvimento americano no conflito. A possibilidade de retomada de conversas com Teerã ainda está sobre a mesa, segundo a Casa Branca.
O chanceler iraniano Abbas Araqchi afirmou que não vê espaço para negociações com os EUA, enquanto os ataques israelenses continuarem. Apesar disso, ele deve se reunir com representantes da União Europeia — incluindo França, Alemanha, Reino Unido e a chefe da diplomacia europeia — nesta sexta-feira, em Genebra. A reunião busca abrir caminho para reativar os canais diplomáticos, embora diplomatas reconheçam que as chances de avanços sejam mínimas.
O conflito se intensificou na sexta-feira anterior, quando Israel iniciou uma série de ataques contra o Irã, alegando que o país estava prestes a obter capacidade de fabricar armamentos nucleares. Teerã, por sua vez, insiste que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos e revidou com drones e mísseis.
Apesar de nunca ter confirmado, Israel é amplamente reconhecido por possuir armamento nuclear. De acordo com a Human Rights Activists News Agency, sediada nos EUA, os bombardeios israelenses já causaram 639 mortes no Irã, incluindo altos oficiais e cientistas do setor nuclear. Israel relatou ao menos 24 civis mortos por ataques iranianos.
A Reuters informou que ainda não conseguiu confirmar de maneira independente os dados de vítimas. O número total de mortos nos últimos ataques também permanece incerto. Ambas as partes sustentam que os alvos são militares, mas civis continuam sendo atingidos, e cada lado acusa o outro de atacar instalações médicas.
Um portal iraniano relatou que um drone atingiu um edifício residencial no centro de Teerã, mas sem detalhes adicionais. Até o momento, os ataques de Israel às instalações nucleares iranianas não geraram riscos significativos de radiação, segundo especialistas. Contudo, alertam que qualquer impacto à usina de Bushehr pode provocar uma tragédia atômica.
Israel mantém sua postura de eliminar a infraestrutura nuclear iraniana, embora declare interesse em evitar catástrofes na região, que abriga milhões de pessoas e concentra grande parte da produção global de petróleo.
A reunião em Genebra, marcada para a tarde de sexta-feira, ocorre no mesmo local onde foi firmado o acordo provisório de 2013 que limitava o programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções, posteriormente consolidado em 2015. Os EUA deixaram esse pacto em 2018, durante o governo Trump.
Negociações posteriores entre Teerã e Washington fracassaram após o lançamento da chamada “Operação Leão Ascendente” por Israel, no dia 12 de junho, com foco nas instalações nucleares e capacidades balísticas iranianas.
Desde então, Trump tem alternado entre ameaças e convites ao diálogo, enquanto seu enviado especial, Steve Witkoff, mantém contato com Araqchi.
A tensão no Oriente Médio aumentou desde o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, desencadeando a guerra em Gaza. Desde então, Israel também vem enfrentando grupos aliados ao Irã em diferentes frentes. Fontes ocidentais afirmam que o país busca derrubar o regime do aiatolá Ali Khamenei.
Na quinta-feira, o premiê israelense Benjamin Netanyahu sugeriu que a queda do regime iraniano seria um possível desdobramento, embora ressaltando que essa mudança caberia ao povo do Irã.
Embora alguns opositores iranianos acreditem que o momento seja oportuno para mudanças, ativistas temem iniciar novos protestos enquanto o país está sob ataque, especialmente devido à forte repressão das autoridades locais.
“Como as pessoas podem protestar sob tamanha ameaça? Todos estão focados apenas em proteger suas famílias, seus vizinhos e até seus animais”, declarou a ativista Atena Daemi, que passou seis anos presa antes de deixar o país.