Proposta para fim da jornada 6×1 lidera percepção popular sobre governo Lula

Apesar de ser amplamente associada à gestão federal, a iniciativa partiu da deputada Erika Hilton (PSOL), elaborada em conjunto com o Movimento VAT (Vida Além do Trabalho)

A proposta de extinguir a jornada de trabalho no modelo 6×1 – seis dias de atividade com apenas um dia de folga – é, atualmente, a ideia mais conhecida entre os brasileiros quando se trata do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Esse dado foi revelado por uma pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (4).

De acordo com o levantamento, a sugestão conta com a aprovação de 60% dos entrevistados.

Apesar de ser amplamente associada à gestão federal, a iniciativa partiu da deputada Erika Hilton (PSOL), elaborada em conjunto com o Movimento VAT (Vida Além do Trabalho). Apresentada há pouco mais de três meses, a proposta de emenda à Constituição ainda aguarda avanços formais na Câmara dos Deputados.

Em termos de reconhecimento popular, essa proposta supera até medidas do próprio Executivo, como a isenção de Imposto de Renda para rendimentos mensais de até R$ 5 mil, o reforço do Vale Gás e a gratuidade na conta de energia elétrica para famílias inscritas no CadÚnico.

A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre os dias 29 de maio e 1º de junho. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A deputada apresentou a PEC no dia 25 de fevereiro, pouco após o fim do recesso legislativo. Posteriormente, o presidente Lula declarou apoio à pauta em seu pronunciamento oficial no 1º de Maio, data simbólica para as discussões trabalhistas.

Na ocasião, o presidente afirmou ser necessário avançar na discussão sobre o atual regime de trabalho. Antes disso, no entanto, abordou a proposta de ampliar a faixa de isenção do IR – considerada uma das principais apostas do governo para conquistar apoio popular.

“Chegou o momento de o país repensar a jornada de seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Precisamos ouvir todos os setores e buscar equilíbrio entre o emprego e o bem-estar das pessoas”, afirmou Lula em seu discurso.

Desde que foi protocolada, a PEC ainda não teve avanços concretos. A única ação até agora foi a criação de uma subcomissão específica para discutir o tema. O deputado Luiz Gastão (PSD-CE) será o relator.

Durante a reunião que definiu o nome do relator, apenas o deputado Zucco (PL-RS) se posicionou de maneira contrária à proposta. Já Vicentinho (PT-SP) destacou que a última mudança relevante na jornada de trabalho ocorreu em 1988, com a Constituição reduzindo o limite semanal de 48 para 44 horas.

Na época, Lula e Vicentinho participaram do processo constituinte e defenderam a diminuição da carga horária. A busca por jornadas mais curtas é uma pauta histórica do movimento trabalhista, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo, desde o surgimento do Dia do Trabalho como feriado nacional.

Apesar de bem recebida por parte da sociedade, a ideia divide opiniões. Especialmente entre empresários do comércio e dos serviços, há resistência. Muitos veem a redução como impraticável no contexto atual. Ainda assim, há setores buscando novos modelos para manter profissionais qualificados em suas equipes.

Supermercados, bares e restaurantes, por exemplo, enfrentam dificuldades para atrair jovens trabalhadores, que frequentemente preferem empregos informais com maior flexibilidade, como motoristas de aplicativo ou atividades em regime de home office – também sob análise do governo para futura regulamentação.

No Brasil, já houve experiências com a chamada semana de quatro dias. Em 2024, 19 empresas participaram de um teste-piloto com esse modelo. Os resultados mostraram crescimento de produtividade em mais de 70% das companhias, aumento do engajamento em 60,3% e maior comprometimento em 65,5%.

Ainda assim, especialistas indicam que o formato exige adaptações. Em setores como saúde, a mudança demanda contratação extra. Já na área jurídica, a dinâmica imprevisível das audiências torna difícil a adoção imediata da escala reduzida.

Para que a proposta avance no Congresso, precisa primeiro passar pela Comissão de Constituição e Justiça e, depois, por uma comissão especial dedicada à matéria. O trâmite ainda exige votação em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado, com necessidade de apoio de pelo menos três quintos dos parlamentares em cada casa legislativa – o equivalente a 308 votos na Câmara e 49 no Senado.