Ícone do site Brasil Direto Notícias

Achados arqueológicos revelam cemitério indígena com urnas cerimoniais no interior do Ceará

Por Brasil Direto

Na região da Serra do Evaristo, no município de Baturité, a aproximadamente 100 quilômetros de Fortaleza, uma série de descobertas arqueológicas tem emergido do solo em plena Mata Atlântica. Fragmentos de cerâmica, urnas funerárias, utensílios do cotidiano, ferramentas de pedra polida e restos mortais humanos vêm sendo revelados desde 2012, quando obras de infraestrutura, como instalação de cisternas e serviços de terraplanagem, trouxeram à tona os primeiros vestígios enterrados.

A área, atualmente habitada por uma comunidade quilombola, passou a ser monitorada por arqueólogos após os achados iniciais. Naquele mesmo ano, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou escavações emergenciais e firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para garantir a preservação e continuidade das pesquisas. Desde então, a cada nova intervenção, mais peças vêm sendo encontradas — muitas vezes em locais inusitados, como o campo de futebol, estradas e até nos quintais das residências.

Coordenada pelos arqueólogos Andrea Lessa e Vinicius Franco, do Museu Nacional, a pesquisa identificou cerca de dez urnas cerâmicas até o momento. Os recipientes, utilizados como estruturas funerárias, guardam corpos em posição fetal e são frequentemente acompanhados por vasilhas e outros objetos de uso cotidiano, funcionando como verdadeiros “caixões simbólicos” de uma sociedade ancestral.

Segundo Franco, com base nos formatos das urnas, nos materiais descobertos e em análises preliminares de datação, os arqueólogos trabalham com a hipótese de que os sepultamentos estão relacionados à chamada Tradição Aratu — um grupo humano pré-colonial registrado desde a década de 1970 no Nordeste, especialmente na Bahia, e que teria se expandido até o Ceará. A data estimada de um dos sítios é de aproximadamente 550 anos, período anterior à chegada dos colonizadores europeus.

O pesquisador ressalta que, por viverem mais afastados do litoral, esses povos antigos podem ter preservado melhor seus costumes e artefatos. Após a interrupção dos trabalhos durante a pandemia, as escavações foram retomadas em março deste ano, com a abertura de dez novas trincheiras, cada uma medindo cerca de um metro de diâmetro. Em duas delas, foram localizados restos mortais, incluindo dentes e fragmentos ósseos.

Esses materiais permitirão análises químicas baseadas em elementos como nitrogênio e carbono, que ajudam a identificar padrões alimentares e aspectos do modo de vida daquelas populações. Franco explica que, a partir desses marcadores, é possível entender que alimentos eram consumidos, como os grupos se organizavam socialmente e qual era a lógica dos sepultamentos — que, por sua disposição no espaço, podem indicar laços de parentesco e vínculos familiares.

Além das escavações manuais, a equipe também utilizará tecnologia de radar de penetração no solo (GPR – Ground Penetrating Radar) para mapear a densidade do terreno e localizar áreas com potencial arqueológico ainda não exploradas. As análises dos materiais serão conduzidas pelo Instituto Tembetá, no Ceará.

Apesar de um grande contratempo em 2018 — quando o incêndio que atingiu o Museu Nacional destruiu materiais da pesquisa de mestrado sobre a alimentação desses grupos antigos —, o projeto segue firme. Os arqueólogos agora buscam não apenas compreender a dimensão do sítio arqueológico em Baturité, mas também relacionar essas descobertas com outros registros espalhados pelo território nacional, construindo um retrato mais amplo das ocupações humanas anteriores à colonização.

A pesquisa conta com financiamento do Museu Nacional, da CAPES e da National Geographic, além de apoio técnico e logístico do Instituto Tembetá e do Museu do Evaristo.

Sair da versão mobile