Discurso de Tarcísio sobre tarifas gera contradição com histórico bolsonarista

Apesar do tom conciliador adotado por Tarcísio, a fala causou estranhamento

Durante a abertura da Coopercitrus Expo, realizada nesta sexta-feira (21) no município de Bebedouro, interior de São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) destacou a necessidade de o Brasil, sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), compreender o atual cenário geopolítico global e buscar o fortalecimento do diálogo com os Estados Unidos. A fala acontece poucos dias antes da entrada em vigor das tarifas anunciadas pelo ex-presidente americano Donald Trump.

Apesar do tom conciliador adotado por Tarcísio, a fala causou estranhamento. Isso porque ele tem um histórico de proximidade com Jair Bolsonaro (PL) e com grupos de extrema-direita, que frequentemente promovem discursos ofensivos contra Lula, o Partido dos Trabalhadores e siglas do campo progressista.

Quando Trump tornou pública sua decisão de impor tarifas ao Brasil, medida interpretada como uma ameaça à soberania nacional, o governador de São Paulo inicialmente permaneceu em silêncio. Somente após críticas da população, ele se manifestou de forma mais crítica às ações dos EUA. Mesmo assim, preferiu ironizar Fernando Haddad, atual ministro da Fazenda, após este afirmar que não há motivo para comemoração diante de ataques estrangeiros ao país.

Em seu discurso, Tarcísio fez referência indireta ao presidente Lula ao afirmar que a responsabilidade de representar o Brasil exige uma postura voltada à pacificação e à leitura correta das dinâmicas geopolíticas. Para ele, a imposição de tarifas pode parecer vantajosa para quem as aplica, mas essa lógica se esgota rapidamente e, com o tempo, acaba gerando distorções no mercado. Segundo o governador, apenas com compreensão mútua será possível retomar o equilíbrio nas relações bilaterais.

Ele defendeu ainda que quem exerce papel institucional em nome do país deve atuar para reduzir tensões, evitar alinhamentos automáticos com determinados blocos em detrimento de outros e, principalmente, priorizar os interesses nacionais acima de agendas eleitorais.

No entanto, enquanto busca suavizar o tom diante da crise com os Estados Unidos, Tarcísio evitou qualquer menção às declarações de Donald Trump, que chegou a afirmar que sua política tarifária contra o Brasil tem motivação política — declaração ignorada pelo governador paulista.

O impasse criado pelas sanções americanas trouxe impactos negativos à imagem de Tarcísio no cenário político nacional, justamente no momento em que ele buscava se consolidar como uma das principais apostas da direita para as eleições presidenciais de 2026. Diante da repercussão negativa, o governador tem ajustado seu discurso para demonstrar alinhamento com os interesses de São Paulo, ainda que isso esteja desgastando suas relações com aliados do bolsonarismo.

O movimento também gerou ruídos entre empresários que até então viam em Tarcísio um nome promissor para disputar o Planalto, mas que agora começam a questionar até que ponto ele mantém independência em relação ao grupo político do ex-presidente.