O governo federal está tomando medidas para aproximar um setor tradicionalmente alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o agronegócio, com o objetivo de desenvolver estratégias conjuntas que busquem suspender a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras imposta por Donald Trump aos produtos do Brasil. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, é o responsável por liderar esse esforço e reforçar o apoio dos empresários do setor no intuito de buscar alternativas para driblar a sobretaxa.
Fávaro, que já se manifestou nas redes sociais, revelou que está em contato com os empresários mais impactados pela decisão de Trump e intensificará suas ações com os países do Brics para explorar novos mercados para os produtos agrícolas brasileiros. “Diante da atitude desproporcional do governo dos Estados Unidos, estamos agindo de maneira proativa. Já falei com as principais entidades dos setores mais atingidos, como os de suco de laranja, carne bovina e café, para trabalharmos juntos no objetivo de ampliar mercados, reduzir barreiras comerciais e gerar oportunidades para o setor agropecuário”, declarou o ministro em vídeo postado no Instagram.
Em sua fala, Fávaro mencionou que o foco agora será buscar mercados no Oriente Médio, Sul da Ásia e em outras partes do Sul Global, regiões com grande potencial de consumo, a fim de direcionar as exportações brasileiras. Ele também ressaltou que as iniciativas diplomáticas estão sendo realizadas de forma recíproca para minimizar os impactos da tarifa imposta por Trump.
A aproximação do governo federal com o agronegócio se dá em meio ao descontentamento do setor com as ações de Bolsonaro e de alguns de seus aliados, que têm se envolvido em esforços para salvar o ex-presidente de uma possível condenação no Supremo Tribunal Federal (STF), por seu envolvimento nas tentativas de golpe de Estado. Para muitos no agronegócio, as articulações de Bolsonaro e seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), junto a parlamentares e autoridades dos Estados Unidos, ultrapassaram o objetivo inicial, que era de atacar o STF. De acordo com empresários do setor, isso acabou prejudicando a economia brasileira.
A ex-senadora Kátia Abreu, ex-ministra da Agricultura e ex-presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, foi uma das primeiras a se manifestar sobre o assunto. Ela comentou sobre um vídeo publicado por Eduardo Bolsonaro, no qual o deputado defendia as tarifas de Trump como uma oportunidade para atrair investimentos estrangeiros. “Esse deputado é do Brasil ou dos Estados Unidos?”, questionou a ex-ministra. Em outro comentário, ela criticou tanto Eduardo quanto o ex-presidente Bolsonaro, destacando o prejuízo causado ao Brasil e à classe exportadora, que enfrenta sérias inseguranças econômicas. “Ninguém merece essa preocupação, a insegurança, principalmente com as contas a pagar”, publicou.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), composta principalmente por parlamentares do Centrão e bolsonaristas, também se posicionou contra a medida de Trump, com uma carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto destaca que a tarifa de 50% afeta diretamente o setor agropecuário, com consequências negativas no câmbio, aumento de custos com insumos importados e na competitividade das exportações brasileiras. Porém, a FPA alertou para a necessidade de uma resposta estratégica e diplomática, defendendo a cautela nas negociações.
Os empresários do agro acreditam que até 1º de agosto, data em que Trump pretende implementar a tarifa, ainda há espaço para negociações que possam adiar as sanções. Para o setor, a Lei da Reciprocidade — sancionada em abril — é uma medida que pode mobilizar a opinião pública, mas é vista como prejudicial economicamente. A expectativa é que essa seja uma ferramenta de pressão final, como o próprio presidente Lula mencionou em entrevistas, destacando que a situação não pode se arrastar indefinidamente.
Enquanto as negociações avançam lentamente e a comunicação diplomática não se intensifica entre Brasil e Estados Unidos, o PSol deu entrada com uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Eduardo Bolsonaro, pedindo sua prisão por sua atuação junto ao governo norte-americano. O PSol argumenta que a atuação do deputado fere a soberania nacional e compromete a economia do Brasil ao fomentar a crise tarifária com os EUA. Para o partido, a ação da família Bolsonaro faz parte de uma tentativa de influenciar o cenário econômico e político do país após o fracasso na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
“É inaceitável que um parlamentar articule contra os próprios interesses do país, prejudicando a economia e a estabilidade da nação. A hipocrisia dos autointitulados patriotas, que agora defendem a bandeira dos EUA, está mais clara do que nunca”, afirmou Paula Coradi, presidente do PSol e signatária da ação na PGR.