MP denuncia mãe e filho por feminicídio triplamente qualificado com uso de veneno

Segundo a versão apresentada pelo defensor, Elizabete acumulava dívidas que ultrapassavam os R$ 300 mil, muitas delas relacionadas ao vício em jogos de azar

A defesa de Luiz Antônio Garnica, acusado de ter envolvimento na morte da esposa com a suposta participação da própria mãe, Elizabete Arrabaça, em Ribeirão Preto (SP), nega qualquer participação do médico no crime. Em entrevista ao GLOBO, o advogado Júlio Mossin afirmou que a sogra da vítima teria agido sozinha, motivada por disputas envolvendo bens da família.

Segundo a versão apresentada pelo defensor, Elizabete acumulava dívidas que ultrapassavam os R$ 300 mil, muitas delas relacionadas ao vício em jogos de azar. Ainda conforme a defesa, a aposentada é investigada em outros dois episódios: a morte da filha, Nathália Garnica, e a tentativa de assassinato de uma amiga, com quem mantinha pendências financeiras. A referida amiga chegou a ser internada, mas sobreviveu e prestou depoimento recentemente.

“São fatos isolados que, quando somados, mostram uma linha de atuação parecida. No caso da amiga, por exemplo, havia uma dívida envolvida, mas também questões relacionadas ao patrimônio. Após a separação do marido, a Elizabete gastou tudo o que tinha e acumulou dívidas que já ultrapassam R$ 300 mil. As investigações apontam que ela chegou a fazer pesquisas sobre o que teria direito caso a filha morresse”, afirmou Mossin.

Um dos elementos considerados na investigação é a morte do cachorro de Nathália, que pode ter sido envenenado. O animal será exumado para análise toxicológica.

Ainda de acordo com a defesa, Elizabete teria assassinado Larissa Rodrigues, esposa de Luiz Antônio, por interesse no patrimônio do filho. Larissa teria expressado a intenção de se separar após descobrir uma infidelidade, o que a colocaria como beneficiária de parte dos bens do casal, devido ao regime de comunhão parcial.

A reportagem entrou em contato com a defesa de Elizabete, mas ainda não obteve resposta. Em uma carta escrita no presídio, Elizabete afirmou que ela e o filho são inocentes.

As mortes ocorreram com um intervalo de pouco mais de um mês. Nathália faleceu no dia 9 de fevereiro, em Pontal (SP), inicialmente com suspeita de infarto. Como ela não tinha histórico de doenças cardíacas, exames posteriores indicaram presença de veneno do tipo “chumbinho” em seu organismo. Um dia antes da morte, Elizabete esteve com a filha.

Já Larissa foi encontrada morta por Luiz Antônio no dia 22 de março, em Ribeirão Preto. A perícia também confirmou envenenamento com a mesma substância. Elizabete e Luiz Antônio foram presos no dia 6 de maio, acusados de participação no crime.

Segundo o Ministério Público de São Paulo, Larissa foi envenenada de forma contínua por cerca de 15 dias, sem desconfiar que estava sendo alvo de um plano supostamente arquitetado pelo marido com auxílio da sogra. O desfecho trágico ocorreu no dia 21 de março.

O promotor Marcus Túlio Nicolino relatou que a dupla teria demonstrado extrema frieza, utilizando um método cruel e dificultando qualquer chance de defesa da vítima. Luiz Antônio também teria tentado apagar vestígios do crime, limpando a cena e eliminando provas digitais. Depois da morte, ele teria acessado contas bancárias da esposa, realizando transações e pagamentos.

A acusação formal inclui feminicídio com três qualificadoras: uso de veneno, motivo torpe e meio cruel com dissimulação. O médico também poderá responder por tentativa de fraude processual.

Dada a gravidade das circunstâncias e o risco de fuga, o Ministério Público solicitou a conversão da prisão temporária em preventiva, além da quebra dos sigilos bancários dos envolvidos.

O advogado de Luiz Antônio alegou que os valores movimentados após a morte de Larissa foram usados para quitar obrigações deixadas por ela.

“Ele chegou a pagar o IPVA do carro da Larissa com o dinheiro da conta dela e também usava essa conta para quitar faturas do cartão de crédito dela, porque não queria deixá-la com dívidas. Antes mesmo da abertura do inventário, procurou o gerente do banco para saber como poderia transferir valores para o pai da Larissa”, explicou Mossin.