Na maior floresta tropical do planeta, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) diversificam suas fontes de lucro. Se antes a principal preocupação dos países amazônicos era a rota da cocaína, hoje o crime ambiental ganhou protagonismo, impulsionado pela valorização do ouro e da própria coca no mercado internacional. Especialistas que participaram da Conferência de Segurança Internacional do Forte, no Rio de Janeiro, explicaram que esse “narcogarimpo” sustenta a lavagem de dinheiro dos grupos, utilizando desde criptomoedas até exportações de commodities com aparência legal para grandes empresas estrangeiras.
Robert Muggah, cientista político canadense e cofundador do Instituto Igarapé, observou que poucas regiões do mundo concentram tantos grupos organizados quanto a Amazônia, sobretudo nas zonas de fronteira entre Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia. Segundo ele, facções tiram proveito da desigualdade social e da informalidade para expandir minas clandestinas e outros crimes ambientais, usando essas operações tanto para obter lucros diretos quanto para ocultar ganhos do narcotráfico. Muggah ressaltou que o desmatamento ilegal — responsável por mais de 90 % da devastação amazônica — é acelerado pela influência criminosa.
O pesquisador associou a expansão do narcogarimpo à pandemia de Covid‑19: com a desaceleração da economia global e o recuo do policiamento, a produção de cocaína subiu e, na retomada, houve um salto no volume de droga que atravessa a Amazônia rumo à Europa — estimado por ele em cerca de 40 % do total sul‑americano. Paralelamente, o preço do ouro disparou em meio à instabilidade geopolítica, favorecendo um negócio considerado de baixo risco e alto retorno por facções como PCC e Comando Vermelho (CV). Um relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) de 2023 identificou 42 grupos atuando na região, dos quais 13 são brasileiros.
Na Colômbia, maior produtora de cocaína do mundo, a ex‑ministra do Interior Nancy Patricia Gutiérrez relatou que antigas guerrilhas se fortaleceram com o cultivo de coca, mas migraram para o garimpo ilegal e o contrabando de pessoas. Para ela, essa rede criminosa corrói a democracia, financia a corrupção e provoca episódios de violência política, como o atentado contra o pré‑candidato presidencial Miguel Uribe em Bogotá. O conflito entre facções na região de Catatumbo, na fronteira colombo‑venezuelana, levou ao deslocamento forçado de 56 mil habitantes apenas nos dois primeiros meses do ano. Gutiérrez alerta ainda para o impacto ambiental, incluindo contaminação de rios e avanço sobre terras de povos indígenas isolados.
Do outro lado do mundo, o narcogarimpo alcança as cadeias globais de suprimento, observa Muggah. Embora algumas commodities agrícolas já exijam rastreabilidade, a maior parte do ouro e de outros produtos extraídos ilegalmente chega a fábricas de multinacionais sem verificação adequada, muitas vezes passando por paraísos fiscais e criptomoedas. Maria Rosa Sabbatelli, da Comissão Europeia, acrescentou que redes sofisticadas de contrabando aproveitam rotas na África e na Europa, explicando a presença do PCC no Velho Continente e, em sentido inverso, de máfias albanesa e italiana na América Latina. Ela advertiu que a demanda europeia pode agravar a degradação ambiental se a origem dos insumos não for controlada.
Diante das dificuldades de policiamento em áreas remotas, especialistas defendem maior cooperação internacional. Marcello Della Nina, do Itamaraty, informou que o Brasil tem buscado inserir protocolos de combate ao crime ambiental no Tratado da ONU contra o Crime Organizado Transnacional. Em 2023, a Cúpula de Belém criou uma comissão de segurança pública no âmbito da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), e uma resolução aprovada em Viena apontou quatro prioridades: mineração ilegal, tráfico de flora, tráfico de fauna e comércio ilícito de resíduos. Della Nina classificou o crime ambiental como a terceira atividade mais lucrativa para organizações criminosas, motivo pelo qual novos acordos bilaterais e regionais vêm sendo articulados.