STF recebeu processo confidencial contra Bolsonaro dois dias após anúncio de Trump

Condenado pelo TSE por propagar informações falsas sobre o sistema eleitoral, o ex-presidente está inelegível até pelo menos 2030

Na manhã desta sexta-feira (18), a Polícia Federal realizou uma nova fase de investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que se tornou alvo de mandados judiciais autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As apurações ocorrem em meio a outras frentes investigativas nas quais o ex-mandatário já figura, incluindo a acusação de ter liderado uma articulação contra a ordem constitucional brasileira.

Como parte das medidas determinadas pela Justiça, Bolsonaro deverá usar tornozeleira eletrônica, além de cumprir uma série de restrições, como recolhimento noturno e aos finais de semana. O equipamento foi instalado após o ex-presidente comparecer à sede da Polícia Federal em Brasília.

Essas medidas ocorrem em um momento em que há uma tentativa de aproximação do grupo bolsonarista com o ex-presidente norte-americano Donald Trump. Eduardo Bolsonaro, deputado licenciado e filho do ex-presidente, encontra-se nos Estados Unidos desde março, onde tem defendido medidas contra o STF e buscado apoio político.

Segundo os advogados de Bolsonaro, as buscas aconteceram em sua residência oficial em Brasília, assim como na sede nacional do PL, seu partido. O procedimento judicial que deu origem às ações foi protocolado no STF e direcionado ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes, apenas dois dias após o anúncio de Trump sobre a imposição de tarifas de 50% a produtos brasileiros — medida que teria como um dos argumentos a situação jurídica do ex-presidente.

Conforme informações da colunista Mônica Bergamo, Bolsonaro também está impedido de utilizar redes sociais, de se comunicar com diplomatas estrangeiros, com outros investigados e até mesmo com seu filho Eduardo.

A ofensiva da Polícia Federal se soma a uma fase de enfraquecimento político de Bolsonaro. A repercussão do aumento tarifário imposto pelos EUA fez com que lideranças políticas antes alinhadas ao bolsonarismo, inclusive governadores, recuassem no apoio e passassem a defender soluções diplomáticas para a crise comercial com os americanos.

Bolsonaro tem tentado se desvincular da decisão de Trump. Em declarações recentes, agradeceu a eleição do aliado, mas atribuiu o problema ao governo Lula. Em busca de reverter o impacto da medida, o ex-presidente chegou a pedir a devolução de seu passaporte para negociar diretamente com o governo republicano dos EUA.

Embora tenha sido mencionado nominalmente por Trump na carta enviada ao Brasil justificando a sobretaxa, Bolsonaro desconsiderou o tratamento diferenciado que o país recebeu na comparação com outras nações.

O ex-presidente também se esquivou de comentar se Trump exigiu, como condição, a aprovação de anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro — o que poderia beneficiá-lo. “Se ele quer anistia, pergunte a ele… É muito, se pedir isso aí?”, disse Bolsonaro em tom retórico.

Esta não é a primeira ação da PF contra Bolsonaro. Em fevereiro de 2024, ele já havia sido alvo de mandados de busca e teve seu passaporte recolhido. A operação também envolveu ex-integrantes de seu governo e militares, todos suspeitos de participação na tentativa de impedir a posse de Lula.

Durante seu mandato, Bolsonaro acumulou declarações em defesa de ruptura institucional, atacou o STF, colocou em dúvida o processo eleitoral e alimentou, com desinformação, desconfianças em relação às urnas eletrônicas.

Mesmo após ser derrotado nas urnas, continuou incentivando atos golpistas e se reuniu com integrantes das Forças Armadas para discutir formas de reverter o resultado das eleições.

Condenado pelo TSE por propagar informações falsas sobre o sistema eleitoral, o ex-presidente está inelegível até pelo menos 2030. Caso também seja condenado no STF por crimes como tentativa de golpe, organização criminosa armada e dano ao patrimônio público, Bolsonaro poderá enfrentar penas que somam mais de 40 anos de prisão.