Asilo, manobras e tensão: Bolsonaro sob vigilância redobrada do Supremo

A PGR solicitou que o monitoramento seja realizado em tempo integral, sem interferir diretamente no ambiente doméstico do ex-presidente

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira (25) que a Polícia Federal intensifique a vigilância sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A medida visa impedir uma eventual tentativa de fuga do país diante da proximidade de seu julgamento por envolvimento em suposta tentativa de golpe de Estado.

O pedido partiu do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que considerou prudente reforçar a fiscalização sobre Bolsonaro. Em manifestação ao STF, ele avaliou ser “de bom alvitre” adotar providências imediatas. Moraes acatou a sugestão, classificando-a como “adequada e necessária” para garantir a aplicação da lei penal.

A PGR ainda solicitou que o monitoramento seja realizado em tempo integral, mas sem interferir diretamente no ambiente doméstico do ex-presidente ou perturbar sua vizinhança.

A defesa de Bolsonaro tem buscado diferentes estratégias para atrasar ou alterar o curso do processo, previsto para a próxima semana. Primeiro, pediu que o caso fosse retirado da competência do STF, solicitação que foi negada. Em seguida, tentou transferir o julgamento da Primeira Turma para o plenário, mas também não obteve êxito.

Enquanto isso, cresce a avaliação de que o processo pode gerar impactos internacionais. Autoridades do governo e do Supremo acreditam que os Estados Unidos acompanham o caso de perto e podem usar o julgamento para pressionar o Brasil, inclusive por meio de novas sanções.

A atuação de Bolsonaro tem chamado atenção não apenas no campo jurídico, mas também no político internacional. O ex-presidente norte-americano Donald Trump anunciou medidas econômicas contra o Brasil, além de incluir Moraes na Lei Magnitsky, normalmente aplicada a líderes autoritários e acusados de violações de direitos humanos.

Trump, investigado por práticas autoritárias em seu próprio país, poderia oferecer asilo político a Bolsonaro, que já demonstrou disposição em buscar abrigo fora do Brasil. No fim de 2022, por exemplo, antes de concluir seu mandato, passou semanas na Flórida.

A Hungria também entrou no radar do ex-presidente. Em 2023, após ter o passaporte retido, Bolsonaro passou duas noites na embaixada do país em Brasília, gesto interpretado como um pedido de proteção ao primeiro-ministro Viktor Orbán.

As investigações ainda apontam a Argentina como alternativa considerada. De acordo com a Polícia Federal, foi encontrado em seu celular o rascunho de um pedido de asilo ao presidente Javier Milei, acusado de corrupção. A defesa de Bolsonaro, no entanto, disse ao STF que o documento não passava de um “rascunho antigo” sem valor prático.

Mesmo com os indícios, Bolsonaro nega qualquer plano de deixar o Brasil. Atualmente, cumpre prisão domiciliar em Brasília e é monitorado por tornozeleira eletrônica. Sua residência fica próxima ao setor de embaixadas da capital, o que aumenta a preocupação das autoridades.

Em uma ocasião, durante a instalação da tornozeleira, o ex-presidente teria comentado: “Sair do Brasil é a coisa mais fácil que tem”, frase que reforçou a suspeita de uma possível fuga.

O clima de tensão em torno do julgamento e as articulações de Bolsonaro no cenário internacional têm levado o STF e o governo a concluírem que medidas de vigilância reforçadas são indispensáveis para assegurar sua permanência no território nacional até a decisão final da Justiça.