Parlamentares e aliados de Jair Bolsonaro (PL) minimizaram nesta terça-feira (23) a fala de Donald Trump sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU. Para eles, a declaração não constitui um gesto concreto e dificilmente resultará na reversão das tarifas impostas pelos Estados Unidos ou em qualquer melhora significativa nas relações bilaterais.
Após o surpreendente discurso de Trump, parte dos bolsonaristas permaneceu sem reação, avaliando quais seriam os próximos passos diante da imprevisibilidade do republicano. Reservadamente, admitiram não ter condições de mensurar os impactos políticos para o grupo.
Um aliado expressou preocupação de que Lula pudesse abrir canais de diálogo que anteriormente eram conduzidos apenas por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo empresário Paulo Figueiredo. De forma geral, os bolsonaristas acreditam que a crise poderia até se agravar caso ocorra uma conversa direta entre os dois líderes, mesmo que feita por telefone.
Para esses parlamentares, há mais divergências do que convergências entre Lula e Trump, o que ficaria evidente em um eventual diálogo. Entre os pontos de discordância citados estão a postura pró-Palestina de Lula em contraste com a posição pró-Israel de Trump, a proximidade do petista com o governo Joe Biden e questões ligadas ao Judiciário brasileiro. Um aliado chegou a afirmar que, devido à cobrança sobre o projeto de anistia, Lula encerraria o dia em uma posição política mais frágil do que havia começado.
Bolsonaristas também analisaram o elogio de Trump a Lula como uma estratégia calculada, concebida para pressionar o presidente brasileiro. A leitura é de que, ao ser convidado publicamente para uma reunião, Lula não teria alternativa a não ser participar, transformando o gesto em uma forma de negociação política.
O governo brasileiro enfrenta dificuldades para estabelecer diálogo com a administração Trump, que aplicou tarifas pesadas sobre produtos do país. Essa situação decorre de articulações intensas de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. O gesto de Trump, considerado o primeiro e mais relevante desde o início da crise em julho, gerou atenção especial.
Após o discurso, Eduardo Bolsonaro destacou em suas redes sociais os trechos em que Trump criticou o governo brasileiro, apontando suposta perseguição judicial e interferência em direitos de cidadãos americanos. O deputado ressaltou que qualquer eventual encontro entre Trump e Lula provavelmente ocorreria no Salão Oval, nos termos escolhidos pelo republicano, sem possibilidade de alinhamento prévio pelo Itamaraty.
Segundo o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores), o encontro deve ocorrer por telefone, interpretação que bolsonaristas classificaram como uma forma de Lula evitar o contato direto. Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, afirmou que o presidente brasileiro estaria procurando desculpas para não se encontrar frente a frente com Trump.
Aliados de Bolsonaro também especulam que Trump poderia repetir com Lula a postura adotada com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, episódio que o próprio Lula considerou humilhante. Parte do governo petista compartilha do receio, entendendo que o diálogo poderia ser usado para pressionar ou constranger o líder brasileiro.
Os dois presidentes tiveram uma breve interação na manhã de terça-feira, pouco antes do discurso de Trump na ONU, quando o republicano sugeriu e Lula aceitou uma conversa para a próxima semana. O presidente americano divulgou o encontro ao final de sua fala, destacando que apreciou a postura de Lula e que houve uma “excelente química” entre eles.