Diálogo entre Lula e Trump anima setor financeiro brasileiro nos EUA

A sinalização surgida na Assembleia Geral da ONU reforçou essa percepção de que a situação política e econômica pode se tornar menos tensa

Banqueiros brasileiros com operações nos Estados Unidos receberam com alívio a notícia de que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump poderão se reunir na próxima semana. Para esses atores do setor financeiro, a possibilidade de aproximação entre os dois chefes de Estado pode reduzir o chamado “risco Magnitsky”, mesmo diante das novas sanções aplicadas ao Brasil na segunda-feira (22).

Segundo interlocutores do setor financeiro ouvidos sob condição de anonimato, havia uma expectativa de que o ambiente para instituições brasileiras com operação nos EUA pudesse se tornar mais estável. A sinalização surgida na Assembleia Geral da ONU reforçou essa percepção de que a situação política e econômica pode se tornar menos tensa.

Nas últimas semanas, várias instituições financeiras brasileiras foram notificadas pelo Tesouro dos Estados Unidos sobre a aplicação da Lei Global Magnitsky, que prevê congelamento de ativos no exterior e bloqueio de operações com empresas ligadas a pessoas sancionadas. Bancos brasileiros e americanos foram notificados, e, conforme um banqueiro, as instituições já responderam ao Departamento do Tesouro norte-americano.

As novas sanções, anunciadas nesta segunda-feira, atingem exclusivamente pessoas físicas. Entre os alvos está a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes e o instituto ligado à família dele, enquanto outras sete autoridades brasileiras, majoritariamente vinculadas ao STF, também foram afetadas. Apesar desse cenário, um banqueiro avaliou que o “risco CNPJ” — referente à possibilidade de sanções a bancos no contexto da crise bilateral — diminuiu, um alívio importante para o setor e para o governo brasileiro.

Outro banqueiro avaliou que a sinalização de um encontro entre Lula e Trump representa uma “luz no fim do túnel” em meio à maior crise nas relações bilaterais em mais de 200 anos. Ele defendeu que fosse mantida racionalidade e criticou a atuação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA, considerada por ele um fator de ampliação das sanções contra o Brasil.

Nos últimos meses, o setor privado intensificou esforços junto aos EUA para viabilizar o diálogo entre os presidentes. Empresários viajaram a Washington e contrataram escritórios de lobby com o objetivo de aproximar-se da Casa Branca e contribuir para a melhora da relação comercial e política.

Na terça-feira (23), a sinalização de diálogo entre Lula e Trump trouxe alívio ao empresariado brasileiro. Em um encontro rápido e inédito às margens da ONU, os dois presidentes concordaram em conversar na próxima semana para aparar arestas na relação bilateral. Durante a Assembleia Geral, Trump elogiou Lula após o discurso do presidente brasileiro, que havia criticado as sanções e defendido a soberania e a democracia como princípios inegociáveis.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, avaliou que a perspectiva de reunião pode ajudar a reduzir o impacto das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil. Para Alban, a abertura de diálogo sinalizada por Trump aumenta a esperança de que os dois governos iniciem negociações para revisar medidas tarifárias.

A Amcham Brasil também ressaltou a expectativa de que o encontro permita um diálogo estruturado e de alto nível sobre economia e comércio. A entidade destacou que a negociação bilateral é fundamental para fortalecer a parceria econômica, promover investimentos, gerar empregos e ampliar o comércio entre os dois países.

No início de setembro, a CNI organizou uma missão empresarial a Washington, reunindo cerca de 130 empresários de diversos setores. Durante encontros com autoridades do governo e do Congresso norte-americano, ouviram do vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, que a questão tarifária brasileira era tratada como um tema político.