O INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) investiga a participação de cinco servidores em um suposto “mercado paralelo” de desbloqueios irregulares de benefícios, utilizados para viabilizar empréstimos consignados. Um único funcionário chegou a liberar 20,4 mil benefícios em apenas 39 dias, de acordo com levantamento feito pelo órgão.
Os dados constam em uma nota técnica sigilosa elaborada pela CGMob (Coordenação-Geral de Monitoramento e Cobrança Administrativa de Benefícios), com base em mapeamento realizado entre janeiro e março de 2025. O documento, ao qual a reportagem teve acesso a trechos, foi enviado ao novo comando do INSS em 8 de maio, uma semana após a posse de Gilberto Waller Jr. como presidente da autarquia.
Com base nessas informações, a corregedoria do INSS instaurou um processo administrativo disciplinar e encaminhou os dados à Polícia Federal. O instituto informou que a apuração inicial abrange cinco funcionários, cujas identidades são mantidas em sigilo, e que a investigação segue para apurar eventuais responsabilidades de outros servidores.
Segundo a nota, o termo “mercado paralelo” foi usado pelos próprios técnicos que elaboraram o relatório. Eles apontaram que os desbloqueios estavam diretamente relacionados a empréstimos em andamento, funcionando como um mecanismo facilitador para essas transações.
O documento explica que os benefícios recém-concedidos do INSS nascem bloqueados por 90 dias, período durante o qual não é possível contratar empréstimos consignados. Após esse prazo, o desbloqueio permite a contratação do crédito. A forma como alguns servidores executaram o procedimento foi classificada como uma violação da segurança do processo, favorecendo práticas irregulares e envolvendo, possivelmente, agentes públicos.
Os técnicos também identificaram a participação de correspondentes bancários, conhecidos como “pastinhas”, que recebem comissão pelas contratações, mas não conseguiram estabelecer ligação direta entre eles e servidores específicos durante o monitoramento.
Entre janeiro e março de 2025, foram analisados 342,9 mil desbloqueios feitos por servidores credenciados. Em 45% dos casos, não havia registro formal do requerimento do beneficiário. Um dos servidores liberou sozinho 20,4 mil benefícios, com picos de até 1.254 desbloqueios em um único dia, o que equivale a aproximadamente 2,6 liberações por minuto considerando uma jornada de oito horas. As liberações ocorreram em todas as 27 unidades da federação, levantando dúvidas sobre se ele agiu de forma consciente ou se foi vítima de roubo de senhas ou uso de robôs.
Outro servidor realizou 15,9 mil desbloqueios em 53 dias, com média de 300 liberações diárias e pico de 999 desbloqueios em um único dia. Foram identificadas ainda 2.336 ações em 13 finais de semana e 438 liberações na terça-feira de Carnaval, datas em que não havia expediente no INSS.
Em junho deste ano, o presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção, havia mencionado que cerca de 170 funcionários do INSS estavam credenciados para desbloqueios, um número reduzido frente ao total de trabalhadores da autarquia, aproximadamente 19 mil.
Além disso, os técnicos analisaram 173,3 mil desbloqueios pelo portal de atendimento do INSS, constatando que servidores e estagiários promoviam abertura indiscriminada de tarefas sem atendimento efetivo ao cidadão, evidenciando fragilidades operacionais. Também foram detectadas inconsistências em 782,1 mil pedidos feitos pelo Meu INSS com credenciais de beneficiários.
A CGMob ressaltou que as irregularidades não comprometem a concessão dos benefícios nem implicam diretamente em pagamentos indevidos, mas expõem vulnerabilidades nos sistemas, podendo possibilitar reativações ou emissões indevidas de pagamentos. O documento alerta que a participação de agentes públicos em tais ilícitos representa risco à integridade do INSS e à confiança do público, especialmente diante da falta de mecanismos eficazes de controle.
A nota técnica enfatizou que o tema já havia sido alvo de alertas anteriores e que, considerando a “Operação Sem Desconto” da Polícia Federal e mudanças na alta gestão, era necessário formalizar a comunicação à nova administração do INSS.
Após a divulgação do relatório, o INSS adotou medidas preventivas e corretivas, como o bloqueio de todos os benefícios para novos empréstimos consignados e a exigência de biometria para desbloqueios. Nesta terça-feira (17), o documento foi enviado à Coordenação-Geral de Inteligência do MPS, que destacou que o combate a fraudes é prioridade e que a Força-Tarefa Previdenciária intensificou ações nos últimos anos, com seis operações em 2023, dez em 2024 e 13 em 2025, um aumento de 164% em relação ao período de 2019 a 2022.