Entrega incompleta de corpos de reféns gera tensão e ameaça cessar-fogo em Gaza

Autoridades militares de Israel avaliaram que o Hamas não fez esforços suficientes para localizar e devolver os restos mortais, mesmo tendo informações sobre os locais

Israel anunciou nesta terça-feira que não reabrirá a passagem de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito, como previsto no acordo de cessar-fogo. A decisão foi tomada em retaliação ao Hamas, que não teria cumprido o acordo de devolver todos os corpos de reféns mortos, entregando apenas quatro dos 28 corpos, além de libertar 20 reféns vivos. Como consequência, o Estado israelense reduzirá também o envio de ajuda humanitária ao enclave.

Autoridades militares de Israel avaliaram que o Hamas não fez esforços suficientes para localizar e devolver os restos mortais, mesmo tendo informações sobre os locais. O ministro da Defesa, Israel Katz, classificou o atraso deliberado na entrega como uma violação do acordo e afirmou que será respondido adequadamente. Paralelamente, o Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas expressou preocupação com os corpos ainda retidos e pediu aos mediadores que pressionassem o grupo palestino, alertando sobre possíveis riscos aos 25 reféns que permanecem em cativeiro.

Equipes egípcias, uma das mediadoras do armistício ao lado de Catar, Turquia e EUA, atuam em Gaza na tentativa de localizar os corpos, enfrentando grandes dificuldades devido aos escombros deixados por anos de bombardeios. Autoridades de saúde locais informaram que o primeiro grupo de restos mortais de palestinos mortos foi liberado por Israel e levado ao Hospital Nasser, somando 45 corpos no total. Israel ainda mantém centenas de corpos de palestinos, incluindo combatentes mortos desde outubro de 2023.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha destacou que a devolução de restos mortais é um desafio ainda maior do que libertar reféns vivos, podendo levar dias ou semanas, e que alguns corpos podem nunca ser encontrados. Durante as negociações do cessar-fogo, Israel já sabia que o Hamas poderia não localizar todos os 28 corpos, com pelo menos 15 permanecendo sob escombros ou enterrados em túneis destruídos.

O acordo inicial previa interrupção dos combates, retorno de reféns, libertação de prisioneiros palestinos e retomada da ajuda humanitária. A primeira fase foi implementada, mas as etapas seguintes — como administração futura de Gaza, presença militar israelense e o direito à criação de um Estado palestino — ainda precisam ser discutidas. A proposta prevê que Gaza seja administrada por palestinos sem vínculo com o Hamas ou pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob supervisão internacional, mas sem datas definidas para retirada das tropas israelenses. Israel e EUA afirmam que o reconhecimento de um Estado palestino só poderá ocorrer em negociações futuras.