Metanol em bebidas adulteradas: especialistas explicam sintomas e riscos hora a hora

O metanol é um álcool incolor, semelhante ao etanol, encontrado em bebidas alcoólicas, mas altamente tóxico e proibido para consumo humano

Especialistas alertam que iniciar o tratamento o quanto antes contra a intoxicação por metanol, presente em bebidas adulteradas, aumenta significativamente as chances de evitar danos neurológicos e visuais.

O metanol é um álcool incolor, semelhante ao etanol, encontrado em bebidas alcoólicas, mas altamente tóxico e proibido para consumo humano. Também chamado de álcool metílico, é usado na indústria em solventes, removedores de tinta, vernizes e alguns perfumes. Mesmo pequenas quantidades podem causar intoxicação grave.

Segundo Mariana de Moura Pereira, pesquisadora do Laboratório de Toxicologia da USP, diferenciar metanol de etanol ao ingerir bebidas é praticamente impossível. O que distingue a intoxicação por metanol é o surgimento dos sintomas: enquanto o etanol é metabolizado em produtos não tóxicos, o metanol gera formal­deído e ácido fórmico, substâncias prejudiciais ao organismo. O etanol, quando presente junto ao metanol, pode competir pela enzima que inicia a metabolização, retardando ligeiramente a produção do ácido fórmico e sendo usado como antídoto em algumas situações.

O ácido fórmico é responsável pelos efeitos tóxicos, e sua eliminação é feita de forma mais segura por meio de hemodiálise ou com o uso de antídotos específicos, como o fomepizol, que bloqueia a enzima que transforma o metanol em ácido fórmico. Pessoas idosas ou com comorbidades tendem a desenvolver complicações mais rapidamente, devido ao metabolismo mais lento e à maior vulnerabilidade a processos como acidose metabólica.

A gravidade da intoxicação depende da quantidade de metanol ingerida e do tempo decorrido até o atendimento médico. Quanto maior a dose e mais tardio o socorro, maior a formação de ácido fórmico e, consequentemente, os danos celulares e teciduais.

Os sintomas iniciais, que podem ser confundidos com uma ressaca comum, incluem náuseas, dor de cabeça, tontura e dor abdominal. Já a intoxicação por metanol costuma se manifestar com visão borrada, turva e dor abdominal intensa, sendo a alteração visual o principal sinal de alerta.

O tratamento hospitalar imediato envolve hidratação, exames laboratoriais detalhados e monitoramento das funções renal e hepática. Em até 24 horas, a metabolização do metanol pelo fígado gera ácido fórmico, que compromete a produção de energia das mitocôndrias, afetando tecidos que exigem maior consumo energético, como nervos e retina. Entre 12 e 24 horas após a ingestão, podem surgir visão borrada, fotofobia e percepção de pontos luminosos, além de acidose metabólica, fraqueza, confusão mental e sobrecarga cardíaca e pulmonar.

Se não tratada, a intoxicação pode levar à cegueira em até 48 horas, além de afetar o sistema nervoso central, causando convulsões, alteração de consciência e arritmias cardíacas. Há também risco de falência de múltiplos órgãos, incluindo coração, rins e pulmões, elevando significativamente a chance de morte, mesmo com intervenção médica.

O manejo da intoxicação inclui uso de antídotos, como fomepizol ou etanol, medicamentos para crises convulsivas e, nos casos mais graves, hemodiálise para remoção rápida do metanol e de seus metabólitos do sangue.