A tensão entre Rússia e Otan escalou nesta segunda-feira (1º), depois que o chefe do Comitê Militar da aliança ocidental sugeriu a possibilidade de ataques preventivos para impedir Moscou de avançar com a chamada guerra híbrida na Europa.
Em entrevista ao Financial Times, o almirante italiano Giuseppe Cavo Dragone afirmou:
“No ciberespaço, estamos reagindo, mas avaliamos ser mais proativos em vez de apenas reativos. A dissuasão pode ocorrer via retaliação ou ataque preventivo, e isso precisa ser analisado cuidadosamente.”
O comitê liderado por Dragone é o principal órgão militar da Otan, responsável por orientar as ações dos 32 países membros, sob liderança dos Estados Unidos.
O termo guerra híbrida descreve ações como sabotagem e ataques cibernéticos, que podem ser negados pelos envolvidos. Países europeus acusam a Rússia de perpetrar diversos desses atos, incluindo a explosão em uma ferrovia polonesa na semana passada, acusação que o Kremlin rejeita como “russofobia e paranoia”.
Em resposta, o governo russo considerou as declarações de Dragone “extremamente irresponsáveis” e uma tentativa de escalar o conflito. Na semana passada, o presidente Vladimir Putin chamou de “ridícula” a ideia de que Moscou pretendesse atacar a Otan, afirmando que os membros europeus da aliança prolongam a guerra na Ucrânia para enfraquecer a Rússia.
Dragone citou a operação Sentinela Báltico, iniciada no começo do ano, como exemplo de como a proatividade militar pode ser aplicada sem gerar conflito direto. Entre 2023 e 2024, o mar Báltico registrou incidentes envolvendo danos a cabos submarinos de energia e dados, supostamente ligados a navios russos e chineses, mas sem comprovação formal. Desde então, a Otan mantém patrulhas contínuas, sem novos incidentes graves.
Ocorreram situações como a de um avião francês sendo rastreado por radares russos em Kaliningrado, e interceptações semanais de aeronaves continuam, mas Dragone destaca que “isso mostra que a dissuasão está funcionando”.
Enquanto isso, diplomatas americanos tentam avançar em um acordo de paz para a Ucrânia, esforço que já ultrapassou o prazo estipulado pelo governo Trump, previsto para quinta-feira passada (27). Nos Estados Unidos, ucranianos se reuniram no fim de semana com representantes americanos. A situação em Kiev se complica após a demissão de Andrii Iermak, principal assessor de Zelenski, após investigação anticorrupção.
Iermak trabalhava na revisão de uma proposta pró-Rússia delineada pelo negociador americano Steve Witkoff e o russo Kirill Dmitriev. Apesar das alterações, Moscou rejeitou o texto, mas permanece aberto a negociações. Na terça-feira (2), Witkoff se encontra com Putin em Moscou, possivelmente acompanhado de Jared Kushner, genro de Trump que participou das reuniões nos EUA.
O temor europeu é que haja um retrocesso nos termos mais favoráveis acertados recentemente, já que Witkoff é visto como simpático ao Kremlin. Em busca de apoio internacional, Zelenski viajou a Paris, encontrando-se com Emmanuel Macron, que tenta liderar uma reação contra a aproximação americana com Moscou, mas com recursos limitados diante da influência dos EUA.
Enquanto a diplomacia se movimenta, o conflito segue violento. Nesta segunda, um ataque de mísseis em Dnipro deixou três mortos e cerca de uma dúzia de feridos.