A ofensiva global das fabricantes chinesas fez mais uma “vítima” industrial da Nissan. A marca japonesa confirmou a venda de sua histórica fábrica em Rosslyn, na África do Sul, para a divisão local da Chery. A transação marca o fim da produção da picape Navara (nome global da Frontier) na unidade a partir de maio de 2026.
A venda da histórica fábrica sul-africana não é um evento isolado. O negócio representa mais um capítulo da reestruturação profunda conduzida pela montadora japonesa para conter uma crise financeira que já derrubou seu antigo CEO e resultou em um dos maiores cortes de pessoal de sua história recente.

A unidade de Rosslyn integra a lista de sete fábricas que a Nissan decidiu fechar ou consolidar globalmente. A medida expõe a dificuldade da empresa em sustentar sua capacidade produtiva diante da forte queda nas vendas em seus dois principais mercados: China e Estados Unidos.
Enquanto a Nissan recua, a Chery acelera sua expansão internacional. A fabricante chinesa repete na África a estratégia já aplicada na Europa, onde adquiriu a antiga fábrica da Nissan em Barcelona, na Espanha. Ao comprar os terrenos e edifícios de Rosslyn em operação praticamente “porteira fechada”, a Chery ganha tempo para iniciar uma operação local.
Prejuízo bilionário está no centro da decisão
A venda de ativos estratégicos é consequência do desempenho financeiro negativo apresentado no último ano fiscal. A Nissan registrou um prejuízo anual de 670 bilhões de ienes, o equivalente a cerca de US$ 4,5 bilhões, ou aproximadamente R$ 25 bilhões em conversão direta.
Esse resultado foi provocado por uma combinação de fatores que pressionaram simultaneamente as principais operações da marca. Na China, a Nissan não conseguiu acompanhar a guerra de preços nem o avanço tecnológico das fabricantes locais, como a BYD. Nos Estados Unidos, a estratégia para manter volume de vendas passou por descontos agressivos, o que corroeu significativamente as margens de lucro.
Somam-se a isso os impactos das tarifas comerciais impostas pelo governo norte-americano, que aumentaram os custos e ampliaram a incerteza sobre o futuro da operação no país.

Fracasso da fusão com a Honda agravou o cenário
A situação se tornou ainda mais crítica em fevereiro de 2025, quando fracassaram as negociações para uma fusão envolvendo Nissan, Honda e Mitsubishi. O plano previa a criação de um grupo avaliado em cerca de US$ 60 bilhões, que seria o quarto maior conglomerado automotivo do mundo, com escala suficiente para enfrentar o avanço das marcas chinesas.
O colapso das tratativas teve impacto direto na liderança da empresa. Makoto Uchida deixou o cargo de CEO, sendo substituído por Ivan Espinosa, até então responsável pelas áreas de motorsport e planejamento de produto. Ao assumir, Espinosa classificou os resultados financeiros como um “alerta final” para a sobrevivência da Nissan e passou a conduzir um processo de redução acelerada da companhia.
Corte global atinge 20.000 postos de trabalho
Sem a fusão e com o caixa pressionado, a Nissan adotou medidas drásticas. A venda da fábrica na África do Sul faz parte de um plano que eliminou cerca de 20.000 vagas em apenas um ano, o equivalente a 15% de toda a força de trabalho global da montadora.
A maior parte das demissões ocorreu nas fábricas, que respondem por aproximadamente dois terços dos cortes. Paralelamente, a empresa reduziu de forma significativa seus investimentos futuros. Um projeto de nova fábrica de baterias e veículos elétricos no Japão foi cancelado, um movimento simbólico para uma marca que foi pioneira na eletrificação em massa com o Leaf.