Ao contrário do compromisso assumido pelo Brasil, como país membro da ONU (Organização das Nações Unidas), o número de mortes e lesões graves no trânsito vem aumentando nos últimos anos. Um estudo da Fundação Dom Cabral, que usou como base o volume de tráfego do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e da PRF (Polícia Rodoviária Federal), mostrou que, nas estradas federais, os acidentes atingiram seu pico em 2024, após uma queda registrada em 2020, em decorrência da pandemia. Foram 49.256 acidentes em 2021, 49.175 em 2022, 52.080 em 2023 e 56.117 em 2024, ano em que também ocorreu o maior número de vítimas fatais no período analisado, com 4.995 mortes, e de feridos graves, com 15.916 registros.
“Consideramos que esse crescimento está basicamente relacionado com aumento no volume de tráfego (pós-pandemia)”, diz o professor Paulo Resende, que é diretor do núcleo de infraestrutura e logística da Fundação Dom Cabral (FDC). “É a retomada do crescimento no volume de tráfego, sem grandes mudanças estruturais nas rodovias federais que a gente pudesse sentir um efeito positivo para combater o aumento desse volume”, afirma.
O engenheiro Camilo Adas, conselheiro de tecnologia e transição energética da SAE Brasil, analisa o problema de forma mais ampla. Para ele “o crescimento dos acidentes não tem uma única causa: além do aumento do tráfego, há mudanças de comportamento, entrada de novos motoristas e até fatores econômicos em jogo”.
As rodovias mais perigosas do Brasil
As rodovias BR-101, BR-381 e BR-116 são as que concentram o maior número de acidentes no país. A BR-116 está no topo, com 10.353 acidentes em 2024. “Certamente a BR-116, conhecida em alguns lugares mais fortemente como a Régis Bittencourt, que pertence ao enorme trecho da BR-116 no Brasil, é, sim, a que apresenta a maior taxa de severidade”, diz Paulo Resende, explicando que essa rodovia cruza vários estados, apresentando características muito diferentes, nos diversos trechos.

“Entre São Paulo e Rio de Janeiro, quando é chamada de Via Dutra, a estrada tem um tratamento muito bom. Em compensação, tanto na direção do sul do Brasil quanto na direção do nordeste, onde nós temos trechos em que a rodovia se transforma numa rua, avenida esburacada, não duplicada, de cidades”, explica o diretor.
“Nas pistas duplicadas você tem uma severidade muito relacionada com velocidade e em compensação, quando vai para outros trechos, tem uma condição de acidentes com vítimas fatais e feridos graves, com curvas do meio do século passado, pistas simples, algumas sem a devida pavimentação, sem acostamento, sem sinalização. Uma mistura perigosíssima de movimentos urbanos com movimentos de longa distância, passagem de pedestres não controladas, acesso lateral absolutamente livre e não controlado.”
Condições em que ocorrem mais acidentes
Além de levantar números, o estudo da Fundação Dom Cabral analisou algumas das condições em que os acidentes ocorreram e tirou conclusões surpreendentes, que fogem do senso comum. Ao contrário do que se pensa, que dirigir à noite é mais perigoso, em 2024, 54,7% dos acidentes nas rodovias aconteceram a plena luz do dia, enquanto 35,06%, foi à noite.
“À noite, em geral, nas rodovias federais, a gente tem uma redução no tráfego pesado e menor movimentação urbana, com redução do número de motos e de pedestres”, afirma o diretor Paulo Resende. Segundo ele, a crença de que dirigir à noite é mais perigoso também ajuda a diminuir os acidentes, no entanto. “Diante dessa percepção, existe uma precaução quase que automática, quase que natural de quem dirige à noite.”
O especialista da SAE Brasil acrescenta que “quem dirige à noite costuma ser mais experiente ou está mais atento, enquanto o tráfego diurno é mais intenso e diversificado”, afirma Camilo.
Os automóveis representam 65,37% dos acidentes, seguido por motocicleta (37,50%) e caminhão (26,26%).
Outra constatação inesperada diz respeito ao fato de que ocorrem mais acidentes em trechos retos (64,48%) do que em curvas (18,86%). E a explicação aqui está relacionada à velocidade. Os motoristas se sentem mais seguros e aceleraram mais nas retas, transformando o que deveria ser um trecho mais seguro em mais inseguro. Igualmente surpreendente são as estatísticas que contemplam as condições meteorológicas: há mais ocorrências com o céu claro (59,37%) do que com céu nublado (16,78%) e com chuva (11,09%). Outra vez, é a crença dos motoristas interferindo em seu comportamento e alterando os riscos.

Nem tudo verificado na realidade é resultado desse tipo de contradição, entretanto. Há estatísticas que reforçam o senso comum. O levantamento da FDC aponta que mais da metade das ocorrências (52,38%) acontece em rodovias de pistas simples. Na sequência, aparecem a pista dupla (39,53%) e múltipla (8,09%). Ou seja, quanto mais faixas, em tese, mais seguro.
“A pista simples é a mais perigosa porque ela definitivamente não tem, em geral, uma separação física das mãos de direção. Na reta, ela é extremamente perigosa porque o motorista se empolga com a velocidade e cruza uma pista simples e outro veículo está vindo na outra direção, com alta velocidade também.
Em relação aos tipos de colisão, a frontal responde pela maior parcela da taxa de severidade, com 18,33%, seguida pela colisão traseira, com 15,60%. “A colisão frontal responde pela maior parcela de severidade por causa da pista simples. E o acidente que mais mata no Brasil é aquele que resulta na seguinte combinação: pista simples, curva fechada, muito fechada, que não dá visão para o motorista, à noite, e colisão frontal. Essa mistura é extremamente perigosa e a probabilidade ou a possibilidade de ela resultar num acidente com feridos graves e vítimas fatais é a maior possibilidade combinatória da nossa pesquisa”, diz Paulo, da FDC.
Ao que ficar atento?
Especialistas afirmam que existe um período crítico no aumento das taxas de severidade em várias BRs, que é do dia 15 de dezembro ao dia 15 de janeiro. “Nesse período você tem muitos motoristas com uma certa pressa, muitos motoristas aumentando a sua viagem à noite, muitos motoristas que não estão acostumados a viajar na longa distância se misturando com motoristas que estão dirigindo na longa distância, e essa mistura nunca é boa. Então, sim, nós podemos afirmar, por uma leitura indireta dos nossos dados, que o cuidado tem que ser aumentado bastante no período de férias. E o comportamento, não ter pressa de chegar, isso é muito importante.”