As manifestações contra o governo iraniano se espalharam por todas as 31 províncias do país, levando o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, a adotar uma postura firme. Em discurso nesta sexta-feira (9), ele declarou que “não irá tolerar cidadãos agindo como mercenários para estrangeiros”, em referência às tensões com os Estados Unidos.
Khamenei criticou diretamente o presidente americano Donald Trump, que havia ameaçado intervir militarmente caso houvesse mortes durante os protestos. Segundo a ONG Iran Human Rights, até quinta-feira, o confronto já havia deixado 45 mortos, além de dois policiais.
“Na noite passada em Teerã, um grupo de vândalos destruiu um prédio público apenas para agradar o presidente dos Estados Unidos. Trump deveria cuidar do próprio país”, disse Khamenei, reconhecendo, de forma rara, a magnitude do problema, que, segundo ativistas, já atinge 300 cidades.
A capital iraniana viveu sua noite mais intensa desde o início da crise, com carros incendiados e multidões nas ruas. O governo mantém cortes de internet e interrupções no serviço de telefonia, tentando dificultar a organização dos protestos, que são convocados por aplicativos de mensagem, segundo a ativista Noor.
Os protestos ganharam força a partir de 28 de dezembro, motivados por uma inflação anual de 42,5% e pela rápida desvalorização do rial frente ao dólar, que afetou especialmente a classe média. Uma crise hídrica histórica também contribuiu para a tensão, levando o governo a anunciar um plano de evacuação da capital.
O movimento rapidamente se voltou contra o governo, incorporando pautas de protestos anteriores ocorridos em 2009, 2017, 2019 e 2022-23, incluindo a morte de uma jovem presa por uso considerado incorreto do véu islâmico. Inicialmente concentrados no oeste do país, região com população curda e fronteira instável com o Iraque, os atos se espalharam para Teerã, Isfahan e outras cidades, tornando-se mais violentos, com vandalismo e destruição de propriedades.
Na madrugada desta sexta-feira, houve grandes protestos em Mashhad, segunda maior cidade e centro espiritual do Irã. No sul, em Fars, manifestantes derrubaram uma estátua do general Qassem Suleimani, morto por Trump em 2020. Incêndios e tumultos foram relatados em diversas cidades, enquanto vídeos escapavam dos mecanismos de controle e circulavam nas redes sociais. Na capital, prédios públicos foram vandalizados, e voos internos foram cancelados.
Não há liderança centralizada nos protestos. O príncipe Reza Pahlavi, filho do último xá deposto em 1979, tem tentado ocupar esse espaço, incentivando manifestações pacíficas. “Vão às ruas”, publicou ele, ressoando principalmente entre os jovens, mas ainda sem força suficiente para desafiar a teocracia de Khamenei.
O regime enfrenta uma fase de vulnerabilidade, agravada por crises recentes. Em 2024, o presidente Ebrahim Raisi morreu em uma queda de helicóptero. Conflitos com Israel em 2024 e 2025, incluindo ataques a programas nucleares e intervenções militares de Trump, enfraqueceram aliados do Irã, como Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah, e aprofundaram a crise econômica.
Atualmente, o presidente Masoud Pezeshkian tenta medidas mais brandas e ajustes internos, mas Khamenei mantém a postura dura, com a Guarda Revolucionária intensificando a repressão, enquanto a população segue protestando em diferentes regiões do país.