A holding financeira Fictor protocolou neste domingo (1º) um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), alegando uma dívida de R$ 4 bilhões.
No pedido, a empresa solicitou tutela de urgência para suspender execuções e bloqueios por 180 dias. Segundo a Fictor, a medida é necessária para reduzir o risco de “corridas individuais que pressionem ainda mais a liquidez e prejudiquem uma solução coletiva e equânime”.
O grupo Fictor, fundado em 2007, atua em setores como alimentos, gestão de recursos, meios de pagamento, energia e imóveis. Atualmente, o conglomerado possui cerca de 30 empresas, com patrimônio estimado em mais de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,2 bilhões).
O pedido de recuperação judicial atinge especificamente a Fictor Holding e a Fictor Invest, responsáveis pelo braço financeiro do grupo. De acordo com a companhia, a maior parte dos credores são sócios participantes dos negócios oferecidos.
“A medida busca criar um ambiente de negociação estruturada e com tratamento isonômico, que possa garantir a continuidade das atividades de forma sustentável”, disse a Fictor em comunicado nesta segunda-feira (2).
Subsidiárias do grupo, como a Fictor Alimentos S.A. (empresa listada na B3), continuarão suas operações normalmente. Conforme o advogado Carlos Deneszczuk, do Dasa Advogados, a recuperação judicial visa “evitar que empresas economicamente viáveis sejam prejudicadas por restrições típicas de um processo recuperacional, impedindo o funcionamento do grupo como um todo”.
Em novembro de 2025, a Fictor anunciou a intenção de adquirir o Banco Master, um dia antes do banco ter sua liquidação determinada. A operação foi barrada pelo Banco Central. Atualmente, o Master e outras empresas do conglomerado financeiro, como Will Bank e Letsbank, estão em processo de liquidação.
Nas últimas semanas, a companhia enfrentou questionamentos judiciais por problemas no pagamento de dividendos de clientes. No dia 27 de janeiro, o TJSP bloqueou R$ 150 milhões das contas da Fictor, após um cliente alegar que a empresa havia retirado recursos de uma conta de garantia. Pelas regras contratuais, a Fictor deveria manter esses R$ 150 milhões para evitar riscos de inadimplência.
Segundo a empresa, a crise de liquidez do Banco Master poderia ter afetado suas próprias operações, situação reconhecida pela Justiça ao determinar o bloqueio judicial das contas. Na ocasião, a Fictor planejava injetar mais de R$ 3 bilhões na compra do Master.
“Nesse período, pela lei, a companhia garante o direito de negociar um plano de recuperação, prevendo novas condições e prazos de pagamento de seus compromissos, sem interromper as operações e, consequentemente, preservando mais de 10.000 empregos diretos e indiretos”, destacou a Fictor.
Antes de acionar a Justiça, a empresa afirmava atravessar um período atípico, mas negava insolvência estrutural. Em 14 de janeiro, a Fictor prometeu regularizar pagamentos de investidores até 12 de fevereiro e explicou que a tentativa de compra do Master aumentou temporariamente sua exposição financeira.
A companhia reconheceu que o episódio gerou um “desafio temporário de liquidez e de timing operacional”, intensificado por ajustes com fornecedores estratégicos, mas que não caracteriza insolvência estrutural. Sobre a negociação frustrada, a Fictor afirmou que a reputação do grupo foi afetada por “especulações de mercado” e “notícias negativas”, prejudicando a liquidez.
“Com a crise, o Grupo Fictor implementou um plano de reestruturação que incluiu redução de estrutura física e de colaboradores. Esse movimento foi feito antes do pedido de recuperação judicial, com o objetivo de proteger os direitos dos funcionários e agilizar o pagamento de indenizações trabalhistas”, completou a empresa em nota.