Golpes digitais sob coerção: vítimas sofrem tortura, castigos e exploração sexual

De acordo com o relatório, os abusos ocorreram entre 2021 e 2025 em centros de fraude digital localizados em países como Camboja, Laos, Myanmar, Filipinas e Emirados Árabes Unidos

Milhares de pessoas em diversas regiões do mundo foram coagidas a trabalhar para redes de golpes digitais, muitas delas concentradas no Sudeste Asiático, vivendo em condições degradantes e submetidas a graves violações de direitos humanos. As informações constam em relatório divulgado nesta terça-feira pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O documento reúne centenas de relatos de vítimas, detalhando episódios de tortura, maus-tratos, exploração sexual, abortos forçados, privação de alimentos e confinamento em isolamento. O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, descreveu a lista de abusos como “avassaladora”.

De acordo com o relatório, os abusos ocorreram entre 2021 e 2025 em centros de fraude digital localizados em países como Camboja, Laos, Myanmar, Filipinas e Emirados Árabes Unidos. Entretanto, a atuação dessas redes também foi identificada em nações da África e das Américas.

As vítimas vêm de diferentes partes do mundo, com predominância de cidadãos asiáticos, mas há registros de recrutamento na Europa — incluindo França, Alemanha e Reino Unido — e em países da América Latina, como Peru, Colômbia, Brasil e México.

Após serem aliciadas, essas pessoas eram forçadas a aplicar golpes online, que incluíam roubo de identidade, extorsão, fraudes financeiras e outros tipos de estelionato digital. Muitos eram mantidos em grandes complexos fortificados, descritos como “cidades autossuficientes”, com muros altos, arame farpado e vigilância de seguranças armados. Quem não cumpria as metas de fraude enfrentava punições severas.

Sobreviventes relataram ainda que colegas morreram ao tentar escapar, muitas vezes caindo de sacadas ou telhados, enquanto os capturados sofriam castigos físicos e psicológicos. Nenhuma das vítimas entrevistadas recebeu os pagamentos prometidos pelos recrutadores. O relatório também aponta suspeitas de conivência de policiais e agentes de fronteira, inclusive participando de abusos.

Em resposta às denúncias, a ONU solicitou a realização de operações coordenadas e seguras para resgatar os afetados, além da criação de programas de apoio e reabilitação para os sobreviventes.

Volker Türk destacou a necessidade de que a comunidade internacional enfrente essas redes criminosas, cujo epicentro está no Sudeste Asiático, mas que têm se expandido para outras regiões. Em relatório anterior, de 2023, a ONU já estimava que centenas de milhares de pessoas haviam sido recrutadas à força para atuar em esquemas de fraude online.