Em entrevista ao UOL nesta quinta-feira (5), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se pronunciou sobre um encontro ocorrido em dezembro de 2024 com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no Palácio do Planalto. Segundo Lula, ele teria informado a Vorcaro que a instituição seria alvo de uma “investigação técnica” por parte do Banco Central, sem qualquer influência política. No entanto, o presidente não especificou a qual investigação ele se referia, e as datas não coincidem com a apuração de fraudes relacionadas à venda de carteiras de crédito ao BRB, conduzida pelas autoridades posteriormente.
O encontro, ocorrido a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, contou com a presença de diversas autoridades, incluindo o CEO do Banco Master na época, Augusto Lima, os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia), além de Gabriel Galípolo, que assumiria a presidência do Banco Central em janeiro de 2025.
De acordo com documentos elaborados pelo Banco Central e utilizados pela Polícia Federal e Ministério Público Federal nas investigações, a apuração sobre o Banco Master teve início somente em março de 2025, cerca de três meses após o encontro no Planalto.
Lula afirmou que recebeu vários representantes bancários durante seu mandato e que Vorcaro relatou estar sendo alvo de perseguições. O presidente esclareceu que, em resposta, garantiu que não haveria interferência política e que, caso houvesse irregularidades, elas seriam analisadas de maneira técnica pelo Banco Central.
Após o encontro, Lula disse ter chamado o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e o procurador-geral da República para discutir o caso, sugerindo que, se confirmadas as irregularidades, seria uma oportunidade para investigar grandes esquemas de corrupção.
A assessoria de imprensa da Presidência esclareceu que a fala de Lula se referia exclusivamente ao encontro de dezembro de 2024 e à possibilidade de uma apuração técnica sobre a queixa de Vorcaro, e não à investigação que veio à tona posteriormente.
Relatórios obtidos pela Folha de S. Paulo, provenientes do Banco Central, indicam que a autarquia detectou problemas nas transações de carteiras de crédito entre o Banco Master e o BRB logo nos primeiros meses de 2025. Em 17 de março, o BC emitiu um ofício solicitando esclarecimentos sobre operações que resultaram em um fluxo de R$ 12,2 bilhões do banco público para a instituição privada, valor superior ao limite de exposição permitido.
Em sua defesa, o Banco Master afirmou que os créditos teriam origem em associações de servidores da Bahia, mas o Banco Central concluiu que tais entidades não possuíam a capacidade financeira para movimentar esse montante. Quando o banco mencionou a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações, empresa que estava no centro das investigações, novas suspeitas surgiram.
Criada em novembro de 2024 com outro nome, a Tirreno passou por mudanças significativas de capital e estrutura antes e após o encontro no Planalto. Algumas dessas alterações só foram registradas formalmente meses depois, já durante a apuração conduzida pelo Banco Central.
Como resultado das investigações, o Banco Central enviou uma representação criminal ao Ministério Público Federal em julho de 2025. Em agosto do mesmo ano, a Polícia Federal abriu um inquérito, e Vorcaro foi preso em novembro, mas posteriormente libertado por decisão do TRF-1. O caso segue no Supremo Tribunal Federal (STF), e o Banco Master entrou em liquidação extrajudicial em 18 de novembro.