Relatório da PF acirra tensão institucional e abala relação entre Lula e ministros

Também houve críticas à tentativa de politização do episódio por integrantes do PT

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) demonstraram insatisfação com a condução do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da crise que culminou na saída de Dias Toffoli da relatoria do inquérito envolvendo o Banco Master. Interlocutores do tribunal relataram ao Palácio do Planalto que a Polícia Federal teria ultrapassado limites legais ao investigar um ministro da Corte sem autorização prévia do STF. Também houve críticas à tentativa de politização do episódio por integrantes do PT.

O desconforto se intensificou após a PF encaminhar ao presidente do Supremo, Edson Fachin, um relatório que apontava conexões entre Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Para parte dos magistrados, a produção desse material violaria a prerrogativa de foro do ministro, já que não houve aval judicial do próprio tribunal.

Reservadamente, ministros também afirmaram que membros do governo teriam difundido a versão de que Lula desejava a substituição de Toffoli na relatoria, indicando desgaste interno na Corte. O episódio ampliou o mal-estar entre Judiciário e Executivo.

Diante das reações, o Planalto adotou uma estratégia de contenção. A orientação foi evitar declarações de cunho político sobre o caso e reforçar, inclusive em conversas privadas, que a atuação da PF deve ser estritamente técnica.

Nos bastidores, lideranças do centrão com bom trânsito no STF avaliam que o episódio pode afetar a relação entre Lula e o Supremo, considerado peça-chave para a estabilidade institucional desde o fim do governo Jair Bolsonaro. Segundo relatos, ministros que antes mantinham postura mais alinhada ao Executivo agora demonstram maior incômodo com o atual governo.

A relação entre Lula e parte da Corte já vinha se desgastando desde a indicação de Jorge Messias para vaga no tribunal aberta após a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso. Um grupo de ministros defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco para o posto.

A tensão aumentou quando a PF entregou um relatório de cerca de 200 páginas sobre as relações de Toffoli com o Banco Master. Embora o STF tenha rejeitado o pedido formal de suspeição, o próprio ministro decidiu se afastar voluntariamente da relatoria, sendo substituído por André Mendonça.

Integrantes do tribunal sustentam que a investigação ocorreu de forma irregular, por envolver autoridade com foro privilegiado. Há ainda suspeitas de participação da Receita Federal em vazamentos de informações, o que levou a críticas ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Toffoli confirmou ter recebido valores referentes à venda de participação em um resort, mas negou vínculo de amizade com Vorcaro.

No Congresso, dirigentes partidários e líderes do centrão atuaram para esfriar discussões sobre eventual impeachment do ministro. Em conversas telefônicas com membros da Corte, asseguraram que não haverá iniciativa legislativa para investigá-lo ou pressioná-lo a deixar o cargo.

Parlamentares criticam o que classificam como “vazamentos seletivos” e “pré-julgamento público”, comparando o momento a uma nova fase de operações semelhantes à Lava Jato. Há ainda articulações discretas para criar uma CPI voltada a apurar os vazamentos, embora pedidos relacionados ao Banco Master aguardem decisão dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta.

Enquanto isso, Haddad tem defendido a atuação da Receita sob o comando de Robinson Barreirinhas, afirmando que as ações seguem critérios legais e buscam responsabilizar irregularidades fiscais.