Secretário Kassab e governador Tarcísio trocam indiretas e consolidam atrito

Aliados afirmam que Tarcísio ficou incomodado com a atuação do secretário na ampliação do PSD, filiando prefeitos e deputados de outras legendas da base governista

O relacionamento entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e seu secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), que já enfrentava tensões desde o ano passado, atingiu nas últimas semanas seu ponto mais crítico. Fontes próximas indicam que o clima entre ambos é ruim, e Kassab deve deixar o cargo em breve.

Aliados afirmam que Tarcísio ficou incomodado com a atuação do secretário na ampliação do PSD, filiando prefeitos e deputados de outras legendas da base governista, o que, segundo o governador, comprometeu a estabilidade política e a articulação da gestão. A pressão para que Kassab fosse escolhido como vice na chapa à reeleição, em disputa com o atual vice Felício Ramuth (PSD) e com André do Prado (PL), também contribuiu para o desgaste.

Outro fator que irritou Tarcísio foi o vazamento de informações sobre uma investigação envolvendo Ramuth na Justiça de Andorra, acusado de lavagem de mais de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,3 milhões), embora ele negue as acusações. Questionado pela imprensa, Tarcísio minimizou o caso: “fofoca antes de eleição sempre tem”, ressaltando que isso não influencia a formação da chapa.

Especula-se que o vazamento possa ter partido de Kassab ou de André do Prado, com o objetivo de enfraquecer Ramuth. Ambos negaram qualquer envolvimento. Kassab, por meio de sua assessoria, classificou as acusações como “intrigas apócrifas” e lamentou o baixo nível das especulações. O governador e o secretário não comentaram publicamente o desgaste da relação.

Como secretário de Governo, Kassab administra a distribuição de emendas e convênios às prefeituras e chegou a multiplicar por sete o número de prefeitos filiados ao PSD. Essa atuação, que incluiu facilitação de repasses para prefeitos do próprio partido, provocou críticas internas e alimentou a percepção de que o secretário priorizava interesses partidários sobre os do governo.

O desgaste se aprofundou após as eleições municipais de 2024, quando aliados de Tarcísio começaram a perceber que Kassab trabalhava mais para fortalecer o PSD e sua posição pessoal do que para o governo. A insistência em ser escolhido como vice da chapa, somada a declarações públicas sobre a relação do governador com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tornou o conflito evidente.

Em entrevistas, Kassab comentou sobre a necessidade de Tarcísio equilibrar gratidão a Bolsonaro com afirmação de identidade política, o que foi interpretado como crítica. O governador reagiu publicamente, afirmando que amizade e lealdade não devem ser confundidas com submissão, e destacou o valor desses atributos na política atual.

Fontes próximas projetam que Kassab deve deixar o cargo até abril, para se concentrar nas articulações eleitorais, embora ele queira evitar um rompimento público e manter a estabilidade da base do PSD até o fim da janela partidária. A reunião do secretário com três governadores presidenciáveis nas próximas semanas é vista como um gesto de força do PSD e um recado sobre sua importância para a campanha de reeleição de Tarcísio.