A Toyota do Brasil iniciou uma complexa operação logística e industrial para contornar os efeitos da destruição de sua fábrica de motores em Porto Feliz (SP), atingida por uma microexplosão atmosférica há quatro meses. Para evitar a paralisação das linhas de montagem dos veículos nacionais, a fabricante recorreu à importação de componentes de três continentes e improvisou uma linha de produção de propulsores flex em um galpão alugado na mesma região, como revelam os sites AutoData e AutoIndústria.
A estratégia visa normalizar o abastecimento da rede de concessionárias e garantir o cronograma de produção dos atuais Corolla e Corolla Cross, além de assegurar os motores do recém-lançado SUV compacto Yaris Cross. A medida foi necessária após a unidade original ser considerada inoperante — apenas o piso da fábrica poderá ser reaproveitado.

Operação de guerra logística
A solução encontrada pela montadora envolve uma cadeia de suprimentos global. Motores movidos exclusivamente a gasolina, utilizados em versões específicas do sedã médio, passaram a ser importados prontos do Japão. Já para os motores flex, essenciais para o mercado brasileiro, a operação é mista.
Componentes e partes dos motores estão sendo fabricados em unidades da Toyota no Japão, Turquia e Coreia do Sul. Em uma manobra logística incomum, fornecedores brasileiros continuam produzindo peças locais, que são exportadas para serem integradas a subconjuntos no exterior e, posteriormente, reimportadas para a finalização no Brasil.
Para viabilizar financeiramente essa triangulação, a fabricante negociou com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) um regime temporário de ex-tarifário, permitindo a importação de motores semimontados e desmontados com alíquota reduzida, mesmo havendo similar nacional.

Linha de montagem provisória
Enquanto a fábrica original não é reconstruída, a montagem final dos motores flex foi transferida para um galpão logístico em Porto Feliz. O local, que inicialmente serviria apenas para armazenar o maquinário salvo dos escombros, foi convertido em uma linha de produção ativa.
Essa unidade provisória emprega parte dos 800 colaboradores da planta atingida. Outra parcela do contingente foi realocada para a fábrica de veículos em Sorocaba (SP), enquanto o restante permanece em regime de layoff (suspensão temporária de contrato), sem demissões previstas pela empresa.

Impacto no mercado e novos produtos
A interrupção abrupta na produção de motores em Porto Feliz teve reflexo imediato nas vendas. Segundo a fabricante, houve uma queda de 20% nos emplacamentos em novembro, logo após o incidente, devido ao desabastecimento das concessionárias. A expectativa é que as fábricas de veículos em Indaiatuba e Sorocaba retomem a capacidade total de operação a partir de agora.
O impacto foi sentido pela marca, principalmente no caso do Corolla Cross. O SUV médio estava com uma mão na taça para ser o líder de vendas do segmento em 2025, mas a falta de unidades para venda fez com que o Jeep Compass recuperasse a primeira colocação e mantivesse o título de campeão da categoria.

A normalização é crítica para o próximo grande passo da marca no país: o lançamento do Yaris Cross. O SUV compacto, posicionado abaixo do Corolla Cross para brigar com Hyundai Creta e Volkswagen T-Cross, utilizará a nova motorização híbrida flex. O utilitário começou a ser produzido em Sorocaba (SP) no final de janeiro.
O conjunto mecânico do Yaris Cross deve combinar um motor 1.5 aspirado de quatro cilindros (ciclo Atkinson) a um motor elétrico. Estima-se que a potência combinada fique na casa dos 110 cv, com torque estimado para o motor a combustão próximo aos 14,5 kgfm e entrega imediata de força pelo motor elétrico, priorizando a eficiência energética em vez de desempenho esportivo.
Histórico e futuro
A fábrica de Porto Feliz foi inaugurada em 2016, fruto de um investimento de R$ 580 milhões na época, sendo a primeira planta de motores da Toyota na região, responsável pela produção dos propulsores 1.5 (Yaris e Etios) e 2.0 (Corolla).
O plano de reconstrução da unidade prevê um longo prazo. A Toyota estima que a nova fábrica só estará plenamente operacional em 2028. O projeto prevê uma instalação industrial mais compacta, com maior nível de robotização e novos processos de produção, cujos testes finais devem começar no fim de 2027.