Anvisa barra imunoglobulina, mas carga segue no Panamá com empresa ligada ao crime organizado

A imunoglobulina, um medicamento derivado do plasma sanguíneo, é indicado para pacientes com imunidade comprometida, incluindo casos relacionados ao HIV

Lotes de imunoglobulina adquiridos por uma fornecedora do Ministério da Saúde e posteriormente interditados pela Anvisa foram transferidos à Insight Participações S.A., empresa investigada por suposta ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado.

A imunoglobulina, um medicamento derivado do plasma sanguíneo, é indicado para pacientes com imunidade comprometida, incluindo casos relacionados ao HIV. Originalmente, a carga deveria ter sido exportada para a China, mas permanece no Panamá e tem validade prevista para junho e julho de 2026.

A distribuidora Farma Medical, contratada pelo Ministério da Saúde para fornecer a droga ao SUS, alega não saber o destino final do medicamento e afirma que repassou os lotes à Insight como forma de quitar uma dívida de cerca de R$ 30 milhões. O ministério, no entanto, ressalta que formalmente a Farma Medical conduziu o processo de exportação e que, uma vez fora do país, a fiscalização sobre a carga não é de sua competência.

Em outubro de 2023, a Anvisa interditou o produto, levando o governo federal a romper o contrato com a Farma Medical, que não recebeu pagamento pelo remédio. Em setembro de 2024, a distribuidora firmou um “termo de quitação” cedendo propriedade e direitos da carga à Insight, permitindo à empresa tomar todas as medidas necessárias para a exportação, inclusive junto à Anvisa e ao ministério.

Himad Abdallah Mourad, fundador e diretor da Insight, assinou o documento e já foi alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, que investigou a atuação do PCC na economia formal. Mourad é primo de Mohamad Hussein Mourad, líder foragido da facção criminosa. Em outubro de 2025, ele também foi investigado na operação Octanagem, relacionada a postos de combustíveis e suspeita de adulteração de gasolina e lavagem de dinheiro.

Segundo documentos obtidos pela Folha de S.Paulo, a Star Pharma, fornecedora atual de insulina do SUS, participou do processo de exportação da carga, realizando cotações de embarque em 2025, quando os direitos já pertenciam à Insight. Formalmente, no entanto, apenas a Farma Medical aparece na documentação do Ministério da Saúde, com a China como destino final, embora a carga tenha sido desviada para o Panamá após recusa de entrada no país asiático.

Cerca de 31 mil frascos, avaliados em R$ 30 milhões, permaneceram no estoque do ministério de outubro de 2023 a março de 2025. Inicialmente, a Anvisa havia determinado a destruição do produto, que desembarcou sem controle adequado de temperatura, requisito essencial para medicamentos biológicos. Posteriormente, foi autorizado que a carga fosse devolvida ao fabricante chinês Harbin Pacific para substituição ou ressarcimento.

A imunoglobulina não possuía registro da Anvisa, e a compra pelo SUS ocorreu de forma excepcional devido à ausência de fornecedores nacionais regularizados. A Farma Medical foi selecionada por meio de chamamento emergencial, representando a Prime Pharma LLC, dos Emirados Árabes, que receberia o pagamento internacional.

O Ministério da Saúde informou que a devolução da carga foi conduzida com a Farma Medical, que atuou como representante da Prime Pharma, e que o valor pago pelo armazenamento no armazém de Guarulhos está em processo de restituição. A pasta também aplicou multa de US$ 1,69 milhão à Prime Pharma LLC, sem detalhar se o montante já foi quitado.