Margens de combustíveis disparam em meio à guerra e pressionam consumidores

Na prática, a diferença entre o custo de aquisição e o valor final cobrado ao consumidor cresceu de forma significativa

O aumento das tensões no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, tem repercutido diretamente no mercado brasileiro de combustíveis. Desde o início do ano, distribuidoras e postos ampliaram suas margens de lucro, acompanhando a valorização do petróleo no cenário internacional, segundo dados do relatório mensal do Ministério de Minas e Energia.

O movimento ganhou intensidade em meio à volatilidade das cotações globais e às medidas adotadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva para tentar conter a alta nos preços, como redução de impostos e concessão de subsídios ao diesel e à gasolina.

Na prática, a diferença entre o custo de aquisição e o valor final cobrado ao consumidor cresceu de forma significativa. No caso da gasolina, essa margem avançou quase 28% desde janeiro. Já o diesel S-10 registrou aumento superior a 17%. O destaque, porém, ficou com o diesel S-500, cuja margem mais que dobrou no período, superando 100% de crescimento.

O economista Eric Gil Dantas, do IBGE, afirma que a elevação das margens não é recente, mas foi intensificada pelo cenário atual. Desde 2021, segundo ele, o diesel S-500 acumulou alta de mais de 300% nas margens, enquanto o S-10 subiu mais de 100% e a gasolina cerca de 90%, frente a uma inflação de aproximadamente 35% no mesmo período. “É algo que já vem ocorrendo, mas o movimento ganhou força em meio à confusão gerada pela guerra”, afirmou. “Quando há tensão e conversas sobre possível desabastecimento, o consumidor tende a aceitar preços mais altos para não correr o risco de ficar sem combustível.”

Representantes do setor, no entanto, rejeitam a ideia de oportunismo. Um executivo de uma grande distribuidora afirma que o aumento das margens está ligado à elevação de custos operacionais, como reajustes salariais e fretes mais caros, impulsionados pelo escoamento da safra agrícola. Ele também avalia que o governo enfrenta dificuldades para controlar os preços e tenta deslocar a responsabilidade ao setor.

Outro fator apontado é o crescimento das importações para abastecer redes de postos, o que elevou despesas com transporte marítimo e exigiu maior capital de giro. Além disso, o combustível importado tem chegado ao país com preços superiores aos praticados pela Petrobras.

A escalada nos preços preocupa o Palácio do Planalto, já que pode comprometer os efeitos das medidas de alívio adotadas pelo governo, como a zeragem de tributos e a concessão de subsídios, que juntos representam uma redução estimada de R$ 0,64 por litro ao consumidor.

Diante desse cenário, a Agência Nacional do Petróleo intensificou a fiscalização para combater o que classifica como práticas abusivas. Em uma operação realizada entre os dias 16 e 20 de março, foram inspecionados 154 agentes econômicos em 12 estados, resultando em autuações e interdições por irregularidades.

As ações se baseiam em novas regras que ampliaram o poder de fiscalização da agência, permitindo a aplicação de multas que podem chegar a R$ 500 milhões em casos comprovados de abuso.

Um dos casos investigados envolve a Vibra Energia, que foi autuada após elevar significativamente o preço do diesel em um curto período, com variação considerada desproporcional em relação ao custo.

Em nota, a empresa afirmou que os preços no setor são influenciados por diversos fatores, como custos logísticos, importações, variações cambiais e condições regionais, destacando que o mercado opera em regime de livre concorrência.