Petrobras realiza leilão com ágio elevado e acende alerta no mercado de gás

Ao todo, serão ofertadas cerca de 70 mil toneladas de gás, volume que corresponde a aproximadamente 12% do consumo mensal no país

A Petrobras marcou para esta sexta-feira (27) um novo leilão de GLP, com condições que chamaram a atenção do mercado. O certame prevê um ágio mínimo próximo de 30% sobre o valor normalmente praticado pela estatal na venda do produto.

Ao todo, serão ofertadas cerca de 70 mil toneladas de gás, volume que corresponde a aproximadamente 12% do consumo mensal no país. Os lances partem de adicionais entre R$ 885 e R$ 950 por tonelada, que se somam ao preço-base, atualmente na casa dos R$ 2.900 por tonelada.

A reação do setor foi imediata. O presidente do Sindigás, Sérgio Bandeira de Mello, afirmou que a proposta causou preocupação e surpresa entre as distribuidoras.

Para efeito de comparação, no leilão anterior, os ágios iniciais variaram entre R$ 20 e R$ 150 por tonelada. Ainda assim, a disputa elevou os valores finais, chegando a R$ 1.190 em algumas regiões, como Ipojuca, em Pernambuco, o que representou quase metade do preço de refinaria local.

A realização de leilões faz parte de uma estratégia adotada pela Petrobras desde o fim de 2024, com o objetivo de ajustar parcialmente o mercado interno às oscilações internacionais do GLP, já que os preços nas refinarias não sofrem reajustes desde julho daquele ano.

Em nota, a companhia argumenta que os volumes negociados nesses leilões são destinados principalmente a setores industriais e comerciais, e não ao consumo residencial. Segundo a estatal, isso significa que não deveria haver impacto direto no valor do botijão de 13 quilos utilizado pelas famílias.

Historicamente, o Brasil já adotou uma política de preços diferenciados para o GLP, com valores mais baixos para uso doméstico e mais elevados para consumo em larga escala. Esse modelo foi encerrado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, com apoio de agentes do setor.

Nos últimos anos, voltou ao debate a possibilidade de retomar essa diferenciação. Em paralelo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ampliou programas sociais voltados ao acesso ao gás de cozinha, como o chamado Gás do Povo, direcionado a famílias de baixa renda.

A Petrobras ressalta que sua participação no preço final do botijão é relativamente pequena. Segundo dados recentes, a parcela da estatal gira em torno de R$ 34,73 em um preço médio superior a R$ 100 ao consumidor.

A empresa também afirma que segue garantindo o abastecimento nacional e ampliou em 4,4% a oferta de GLP para os meses de março e abril de 2026, inclusive para atender à demanda gerada por programas sociais.

No cenário internacional, o mercado de GLP tem sido pressionado por tensões geopolíticas, especialmente envolvendo o Irã, importante fornecedor de insumos petroquímicos. Países como China e Índia enfrentam dificuldades de abastecimento, com relatos de filas e até mercado paralelo de botijões.

No Brasil, cerca de 21% do consumo de gás de cozinha em 2025 dependeu de importações, com destaque para fornecimentos dos Estados Unidos e da Argentina, segundo a Agência Nacional do Petróleo.