Dívidas voltam a crescer e país soma quase 82 milhões de inadimplentes

Diante desse cenário, o governo federal discute a criação de uma nova ação voltada aos endividados

O impacto do programa Desenrola Brasil foi passageiro. Menos de dois anos após o fim da iniciativa, criada em 2023 para facilitar a renegociação de dívidas, o país voltou a registrar um forte avanço da inadimplência. Atualmente, cerca de 81,7 milhões de brasileiros estão com contas em atraso — um aumento de aproximadamente 9 milhões de pessoas em relação ao período pós-programa, atingindo o maior nível desde 2012.

Diante desse cenário, o governo federal discute a criação de uma nova ação voltada aos endividados. Especialistas, no entanto, avaliam que o modelo anterior não atacou as causas estruturais do problema, funcionando apenas como um alívio temporário.

O Desenrola foi lançado como resposta ao crescimento das dívidas após a pandemia, quando o país já acumulava mais de 71 milhões de inadimplentes. Ao longo de cerca de 10 meses, o programa conseguiu reduzir parte desse número entre a população de baixa renda, principal público-alvo.

Mesmo assim, o efeito não se sustentou. Após o encerramento, a inadimplência voltou a crescer de forma acelerada, impulsionada por fatores como juros elevados, maior oferta de crédito — especialmente digital — e o aumento dos gastos com apostas online.

Atualmente, o índice de atraso superior a 90 dias atingiu 5,24%, o maior patamar em 14 anos. A maior parte das dívidas está concentrada em bancos, com destaque para o cartão de crédito, além de contas básicas e financiamentos.

Para especialistas, o programa permitiu que muitos consumidores limpassem o nome temporariamente, mas sem resolver o endividamento de fato. Com isso, parte da população voltou rapidamente ao ciclo de dívidas.

Outro ponto criticado foi a dificuldade de acesso à plataforma digital do programa, principalmente na fase voltada à população de baixa renda, o que limitou o alcance da iniciativa.

Agora, o governo avalia um novo modelo de renegociação, com foco em dívidas mais caras, como cartão de crédito e cheque especial, prevendo descontos e parcelamentos. Ainda assim, há receio de que a medida repita os mesmos erros, caso não enfrente as causas do problema, como juros altos, acesso facilitado ao crédito e baixa educação financeira.