Lecar diz conversar com seis marcas para construir fábrica multimarcas no Brasil

Ainda sem definições sobre a fábrica, a Lecar buscou algumas formas de fazer o projeto sair do papel. Uma delas é fazer uma parceria com outras fabricantes para dividir o investimento e ter acesso às tecnologias estrangeiras. De acordo com a empresa, há negociações acontecendo com a cinco marcas chinesas, entre elas a XPeng e a Shineray, além de uma fabricante indiana.

As conversas com outras empresas acontecem enquanto a Lecar tenta viabilizar a fábrica prometida para Sooretama (ES). Segundo Flávio Figueiredo Assis, CEO e dono da Lecar, as obras ainda não começaram por falta de alvarás.

Previsões da futura fábrica da Lecar
Previsões da futura fábrica da LecarLecar/Divulgação

“Estamos aguardando a liberação dos documentos de liberação da área, licenças de obra e licença ambiental para dar início à pedra fundamental. Já concluímos os projetos preliminares, orçamentos e planejamento físico-financeiro dos projetos arquitetônico, ocupação de massa, civil e das instalações industriais, o que nos permite iniciar as obras imediatamente assim que toda a documentação for liberada”, explica o executivo.

Documentos sigilosos trazidos à tona

Foi a própria Lecar quem divulgou, nas redes sociais, documentos que revelam que houve discussões com empresas como a chinesa Neta, que agora atravessa uma tentativa de recuperação na China. Trata-se de um Acordo de Confidencialidade (NDA) entre a Lecar e a Neta Auto do Brasil. A única informação no contrato é que as duas empresas “pretendem colaborar no projeto Brazil KD”, sem dar detalhes sobre o que seria este projeto.

Apesar da falta de informações no NDA, o próprio Flávio Figueiredo Assis, CEO e dono da Lecar, revelou o que seria esse projeto. O acordo de confidencialidade foi assinado no dia 24 de novembro e, dois dias depois, Assis deu uma entrevista ao site G1, afirmando que as primeiras unidades do SUV híbrido 459 seriam feitas na China, para depois vir com a montagem local em CKD, com peças importadas e a carroceria desarmada.

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“Eles vão executar um projeto nosso. É o desejável? Não, mas a gente ganha velocidade e experiência. Essa é uma flexibilidade que a gente aprendeu com o Gurgel”, explicou o executivo na época.

Concessionária Lecar
Divulgação/Lecar

Fontes ligadas à Neta, ouvidas por QUATRO RODAS, confirmaram que existiu uma negociação entre Lecar e Neta, sem dar detalhes sobre o que foi discutido ou a razão do projeto ter sido cancelado.

Um ano depois, a conversa era outra. Em uma conversa com QUATRO RODAS em junho de 2025, Assis disse que “os chineses tentaram passar a perna na Lecar” e que a negociação foi cancelada.

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Ainda sem iniciar a produção da fábrica em Sooretama (ES), a empresa passou a buscar outro possível parceiro na China. Desta vez, a escolhida foi a XPeng, marca de carros elétricos que está se preparando para entrar no Brasil.

Estande Lecar
Mauro Balhessa/Quatro Rodas

Em 12 de março deste ano, a Lecar enviou uma carta ao governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB-ES) sobre as discussões com a XPeng sobre uma possível parceria para o desenvolvimento de uma fábrica conjunta em regime SKD (com a carroceria importada armada e já pintada). O texto diz que a fabricante chinesa busca um aliado que atenda os seguintes critérios:

  • Expertise comprovada na indústria automotiva;
  • Experiência em montagem veicular e cadeia de suprimentos;
  • Capacidade industrial instalada ou adaptável;
  • Capacidade mínima desejável de até 5.000 veículos por mês.
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A carta também pede pela participação da prefeitura de Sooretama com possíveis incentivos, incluindo “doação ou cessão de terrenos” e “agilidade em licenciamento e alvarás”, além de fomentos como o Fundo Soberano ES, BNDES e debentures. Por ora, a Lecar não cumpre com nenhum destes critérios.

Questionado por QUATRO RODAS, Assis confirmou que negocia com a XPeng, afirmando que foi procurado após a marca chinesa visitar o estado do Espírito Santo e conversar com o governo local.

O executivo revela que o plano atual é que a fábrica seja multimarcas, compartilhando as linhas de montagens com outra empresa. Assis diz que as quatro fabricantes chinesas e a indiana (ainda mantidas em sigilo) virão ao Brasil até julho para negociar. Representantes da Shineray teriam visitado o terreno em Sooretama de helicóptero e o interesse é de produzir vans e caminhões de pequeno porte no local.

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Estabelecer uma fábrica multimarcas, neste momento, poderia ser um bom negócio. É uma operação que vem sendo procurada pelas fabricantes chinesas que estão entrando no mercado brasileiro, como forma de alavancar as vendas sem depender apenas de navios que transportam carros completos. Tendo um local para montar carros no Brasil, a operação de importação passa a ser em peças, usando containers que podem ser transportados em navios de carga convencionais. É a operação que a Comexport está fazendo em Horizonte (CE), na antiga fábrica da Troller, que já monta os Chevrolet Spark.

Esquema de pirâmide?

A divulgação dos documentos pela Lecar veio como resposta à investigação do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério da Fazenda por suspeitas de que a venda antecipada de seus carros funcione como um esquema de pirâmide financeira.

Ainda que não tenha nenhum carro pronto e a fábrica em Sooretama (ES) não tenha nem começado a ser construída, a Lecar já começou a vender os dois modelos prometidos (Lecar Campo e 459). A comercialização ocorre por meio de uma modalidade chamada Compra Programada, focada em pagamentos parcelados de longo prazo.

Trecho da análise do Ministério da Fazenda sobre a Lecar

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Nesse sistema, o cliente assume parcelas em 48, 60 ou 72 meses, sem cobrança de juros. A empresa promete entregar o automóvel na metade desse período. Contudo, o Ministério da Fazenda constatou que a companhia não possui autorização legal para operar essa modalidade de consórcio ou venda antecipada no mercado nacional.

A análise conduzida pelo Ministério da Fazenda e enviada ao MPF levanta quatro indícios principais contra o modelo de negócio:

  • A empresa exige pagamento de taxa de adesão para que o participante possa atuar como revendedor, ou seja, paga para trabalhar;
  • Vende promessa de entrega futura sem produto validado;
  • Emprega gatilhos psicológicos de urgência e escassez para pressionar adesões imediatas;
  • Declara expressamente depender da adesão de novos consumidores para suprir o fluxo de caixa.

A procuradora da República Lisiane Cristina Braecher, do MPF de São Paulo, solicitou informações à Fazenda e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O inquérito busca entender como a empresa planeja honrar seus compromissos. Segundo a CVM, prometer ganhos robustos sem investimentos é um marcador típico de operações irreais.

A resposta da montadora tentou afastar as suspeitas de fraude. “Não temos o carro homologado, não temos fábrica, tudo está em desenvolvimento. Não estamos vendendo algo diferente do que comunicamos”, argumentou o fundador da Lecar. Sobre a necessidade de atrair novos compradores para sustentar o caixa, o empresário tratou a dinâmica como um processo lógico. “Nosso plano de negócio prevê contribuição de 50% para entrega do bem e é óbvio que quanto mais clientes entrando, maior o número de contribuição e maior o saldo”, explicou.

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