Lula identifica traições após rejeição histórica de nome ao Supremo

Após a votação, Lula conversou por telefone com Messias. Segundo aliados, o presidente tem adotado cautela antes de qualquer decisão mais contundente

A rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), ocorrida na noite de quarta-feira (29) no Senado, desencadeou uma série de articulações e avaliações dentro do governo federal. Horas após o resultado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu com aliados no Palácio da Alvorada para analisar o cenário e identificar possíveis dissidências que contribuíram para a derrota.

Durante o encontro, integrantes da base governista apontaram movimentações internas, especialmente em partidos como MDB e PSD, que teriam se afastado da orientação do Planalto. Nos bastidores, a condução do processo foi atribuída ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com apoio de outros nomes influentes no cenário político.

Entre as avaliações feitas por aliados do presidente, também foram citadas atuações do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e do ministro do STF Alexandre de Moraes, que teriam participado de articulações contrárias à indicação. Pacheco, inclusive, era visto como uma alternativa para a vaga no Supremo, enquanto Lula considerava seu nome estratégico para uma eventual disputa ao governo de Minas Gerais.

Segundo interlocutores do governo, um acordo para barrar Messias teria sido alinhado em um jantar realizado na noite anterior à votação, na residência oficial do presidente do Senado. Um dos pontos de resistência ao nome do advogado-geral da União teria sido sua posição favorável à criação de um código de ética para a Corte.

Também surgiram suspeitas dentro da base aliada sobre votos contrários vindos do MDB de Alagoas, envolvendo os nomes de Renan Filho e do senador Renan Calheiros. A possível motivação estaria ligada ao apoio ao ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas, que também era cotado para a vaga.

Diante do revés, aliados avaliam possíveis mudanças no governo, incluindo a saída de indicados ligados a Alcolumbre que ocupam ministérios. Apesar disso, relatos indicam que Lula manteve postura tranquila durante a reunião, demonstrando preocupação com o estado emocional de Jorge Messias após a derrota.

No placar final, o nome do AGU recebeu 34 votos favoráveis — sete a menos que o necessário — e 42 contrários. Trata-se da primeira vez, desde 1894, que um indicado à Suprema Corte é rejeitado pelo Senado.

Após a votação, Lula conversou por telefone com Messias. Segundo aliados, o presidente tem adotado cautela antes de qualquer decisão mais contundente, defendendo que medidas não sejam tomadas de forma precipitada. A tendência é que eventuais reações ocorram apenas na próxima semana.

Mesmo diante do cenário adverso, a agenda presidencial seguiu normalmente, com compromissos oficiais mantidos. No Congresso, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o momento exige estratégia e equilíbrio. Já o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), havia sinalizado anteriormente um cenário favorável à aprovação, o que não se confirmou.

A rejeição representa um revés significativo para a articulação política do governo e expõe fragilidades na base aliada no Senado.