Luxo, sigilo e negócios: a história por trás da Ilha da Paixão na Bahia

Por trás das imagens paradisíacas, há uma rede de negócios que conecta a propriedade ao empresário Augusto Lima, que já esteve à frente do Banco Master

Uma pequena ilha situada ao norte de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, passou por mudanças discretas, mas significativas, em 2023. Conhecida anteriormente como Ilha do Topete — nome inspirado no formato do relevo —, a área ganhou uma nova identidade e passou a se chamar Ilha da Paixão.

O novo batismo, no entanto, não resume o nível de exclusividade do local. Com cerca de 10 mil metros quadrados, o espaço reúne uma série de estruturas de alto padrão, como praia de uso restrito, águas cristalinas, piscina, sauna, quadra esportiva, área destinada a eventos e até um heliponto.

Por trás das imagens paradisíacas, há uma rede de negócios que conecta a propriedade ao empresário Augusto Lima, que já esteve à frente do Banco Master. Documentos de cartório apontam que o direito de ocupação da ilha foi negociado em julho de 2023 por R$ 1,3 milhão, apesar de o imóvel ser avaliado em aproximadamente R$ 20 milhões. A compradora foi a empresa RC Participações, Assessoria e Consultoria Empresarial S.A.

De acordo com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), a área possui registro de ocupação desde 1987 e segue em situação regular. A RC, que tem capital declarado de R$ 45,5 milhões, foi incorporada no início de 2023 pelo Falcon Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, vinculado ao fundo Haena 808.

Informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), encaminhadas à CPI do Crime Organizado, indicam que Augusto Lima aparece como único cotista do Haena 808 entre março de 2023 e dezembro de 2025. Tanto esse fundo quanto o Falcon eram geridos pela Reag, instituição sob suspeita de atuar em operações irregulares associadas ao Banco Master.

Relatos obtidos sob condição de anonimato reforçam que a ilha teria sido adquirida diretamente de Eduardo Valente por Augusto Lima. Um registro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostra que o antigo proprietário transferiu à RC os direitos sobre o heliponto existente no local no mesmo período.

Após a negociação, a propriedade passou por uma ampla reestruturação. Grande parte das construções originais foi demolida, incluindo residência principal e instalações voltadas à hospedagem e lazer. As obras mobilizaram equipes de profissionais, entre eles arquitetos e paisagistas, que chegaram a se hospedar em estabelecimentos da região durante meses.

Procurado, Augusto Lima optou por não comentar o assunto por meio de sua defesa. Eduardo Valente também foi contatado, mas não se manifestou até o momento.

O empresário ganhou notoriedade recente após ser alvo da Operação Compliance Zero. Ele ficou detido por 11 dias, entre novembro de 2025, sendo posteriormente liberado por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, embora permaneça sob monitoramento eletrônico.

Além de sua atuação no Banco Master, Lima também controla o Banco Pleno, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. Ele é casado com Flávia Péres, que integrou o governo Bolsonaro como ministra.

Ainda em gestões anteriores na Bahia, o empresário venceu uma licitação para operar o CredCesta, cartão voltado a servidores públicos com desconto em folha, iniciativa que contribuiu para a expansão do Banco Master.