Opinião: emissões dos carros que rodam no Brasil podem ser piores do que se pensa

O Brasil é privilegiado quando o assunto são as emissões de CO2. Uma pesquisa de 2023, feita pela empresa alemã Statista, mostrou que o país é o quinto colocado no ranking dos maiores poluidores no mundo, no setor de transportes. Estamos muito distantes dos líderes: Estados Unidos, primeiro, e China, segundo.

De acordo com o levantamento, o Brasil emitiu naquele ano 216,8 milhões de toneladas de CO2, contra 1,711 bilhão, dos EUA, e 1,078 bilhão, da China. Esses números acompanham o tamanho das frotas circulantes dos países. Mas o Brasil se beneficia de sua matriz energética renovável, do fato de ter uma parte considerável da frota de automóveis flex (atualmente 42%, segundo pesquisa Veloe/Fipe) e também por misturar etanol à gasolina, entre outros fatores. No caso dos veículos comerciais, também há o biocombustível, mas isso é evento mais recente, e nossa frota ainda tem uma idade média alta, com muitos modelos defasados tecnologicamente.

Tirando prós e contras, porém, sempre que vejo estudos sobre as emissões brasileiras, penso que, de verdade, os números são piores que os demonstrados, uma vez que os cálculos se baseiam em dados padronizados, que não levam em consideração diversos aspectos característicos de nossa realidade.

As emissões divulgadas pelo Inmetro e outras que servem para homologação dos veículos e para as estatísticas são obtidas por meio de ensaios em banco de provas, com combustíveis controlados e carros fornecidos pelas fábricas. Ou seja: uma condição irreal de rodagem, com combustível de boa qualidade e automóveis funcionando perfeitamente ajustados.

Entendo que a padronização seja necessária para se obter uma referência passível de análise. Mas essas medições não levam em conta os maus hábitos dos motoristas (ao volante e em relação aos cuidados na manutenção dos veículos) e nem a adulteração dos combustíveis.

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Fico imaginando quanto seria possível reduzir nossas emissões se, por exemplo, os motoristas tivessem pelo menos o cuidado de calibrar os pneus de seus carros a cada 15 dias. Sim, porque pneus com baixa pressão aumentam o consumo (e as emissões) dos veículos. Uma pesquisa feita pela Continental Pneus revelou que 30% dos brasileiros calibram os pneus somente uma vez por mês ou só quando percebem que eles estão murchos.

Teste Qualidade
Motorista pode solicitar o teste do combustível antes de abastecerDivulgação/Quatro Rodas

Em relação aos modelos flex, nem todos motoristas privilegiam o etanol, na hora de abastecer. De acordo com um estudo da consultoria Datagro, somente 30% optam por esse tipo de combustível. Mas isso não é mau comportamento. É apenas a escolha que cada um faz. 

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Ruim mesmo é a existência de combustíveis adulterados, uma praga cada vez mais comum em nosso dia a dia, que se estende aos lubrificantes e até ao aditivo dos catalizadores dos veículos a diesel, o chamado Arla. Até isso é adulterado no Brasil, comprometendo o funcionamento dos motores e do sistema de redução das emissões, dois fatores que aumentam a poluição.

Comparando com outros países, acredito que as estatísticas deles também sofram distorções. No caso, das interferências humanas, preguiça e falta de tempo para coisas como calibrar os pneus são universais – além do fato de que a tecnologia acostumou mal as pessoas que não precisam mais despender tanto tempo para cuidar dos carros como antigamente, quando era necessário colocar água nas baterias, trocar os óleos com mais frequência etc. No que diz respeito às fraudes no combustível, no entanto, suspeito que existam poucos lugares parecidos com o Brasil, que é conhecido internacionalmente entre as fábricas de automóveis como um dos lugares com a gasolina de pior qualidade, em função dos contaminantes encontrados no combustível.

Já tentei descobrir com diversas fontes quanto esses delitos influenciariam no nível de emissões de nossos carros, mas ninguém soube me dizer. Não existem estatísticas.

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Se “no Brasil, até o passado é incerto”, como dizia o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan – uma frase tão absurda, mas tão sensata, a ponto de se tornar dito popular –, o que se pode esperar do presente?

Jornalista fala sobre diferentes assuntos, reflexões e memórias que considera interessantes para compartilhar com os leitores.
Arte/Quatro Rodas
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