Durante participação na sessão ampliada da cúpula do G7, realizada nesta terça-feira (16) em Évian, na França, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas ao enfraquecimento da cooperação internacional e cobrou maior compromisso das nações mais ricas com os desafios enfrentados pelos países em desenvolvimento.
Ao discursar no painel dedicado ao fortalecimento de parcerias globais e à reconstrução da solidariedade internacional, Lula afirmou que a comunidade internacional tem falhado em construir respostas duradouras para crises que se repetem ao longo dos anos.
“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, declarou.
O presidente também abordou o combate ao crime organizado transnacional, defendendo ações coordenadas entre os países, mas ressaltando a necessidade de respeito à autonomia nacional.
“Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, afirmou.
Segundo Lula, o narcotráfico gera impactos profundos sobre a sociedade ao comprometer recursos que poderiam ser destinados a áreas essenciais.
O presidente destacou que o tráfico de drogas “aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas” e acrescentou que o enfrentamento ao problema “não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas.”
A declaração ocorre em um momento de divergência entre Brasil e Estados Unidos sobre a classificação de facções criminosas brasileiras. Recentemente, o governo norte-americano incluiu o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras, medida que foi contestada pelo governo brasileiro.
No discurso, Lula também fez uma análise crítica da condução econômica global nas últimas décadas. Sem mencionar diretamente governos ou líderes específicos, afirmou que determinadas políticas contribuíram para ampliar desigualdades e fragilizar democracias.
Segundo ele, os países “ficaram aprisionados em dogmas que defendem a desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos” e que “o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”.
Ao comentar o cenário atual, o presidente alertou para o retorno de práticas comerciais restritivas e decisões unilaterais.
“O protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou.
Lula também citou números relacionados à redução de recursos destinados a programas internacionais de desenvolvimento e assistência humanitária. Para ele, os cortes têm consequências diretas sobre milhões de pessoas em países mais vulneráveis.
“Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, disse.
O presidente defendeu ainda mudanças no sistema financeiro internacional e criticou o peso das dívidas sobre economias emergentes.
“Precisamos de um sistema no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, declarou.
Na área ambiental, Lula voltou a cobrar maior participação financeira das nações desenvolvidas no enfrentamento das mudanças climáticas e mencionou iniciativas brasileiras voltadas à preservação ambiental, ao combate à fome e à valorização de cadeias produtivas ligadas à transição energética.
Esta foi a décima vez que o presidente brasileiro participou de uma reunião de cúpula do G7 ou do antigo G8. Ao recordar sua primeira participação, em 2003, Lula afirmou que os desafios globais persistem e que ainda faltam soluções coletivas capazes de enfrentar problemas de longo prazo.