Durante agenda oficial na Espanha nesta segunda-feira (8), o papa Leão XIV voltou a abordar a questão dos abusos sexuais cometidos por integrantes da Igreja Católica, classificando o problema como uma “praga” que exige respostas concretas e comprometidas com as vítimas.
Ao discursar para bispos espanhóis, o pontífice destacou que uma das situações mais dolorosas enfrentadas pela Igreja é o sofrimento causado por pessoas que deveriam exercer funções de cuidado e proteção.
“Uma das experiências mais dolorosas é encontrar aqueles que foram feridos precisamente por quem deveria cuidar deles, incluindo membros do clero”, afirmou o papa.
Leão XIV defendeu que os sobreviventes desses casos encontrem dentro da própria instituição acolhimento, apoio e mecanismos efetivos para a reconstrução de suas vidas. Segundo ele, a Igreja precisa fortalecer ações preventivas e ampliar medidas voltadas à proteção de crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Diante desta praga, a comunidade eclesiástica é chamada a responder com escuta, verdade, justiça e reparação”, declarou.
A fala é considerada uma das manifestações mais contundentes do pontífice sobre o tema durante sua visita ao país europeu, onde os escândalos envolvendo abusos praticados por religiosos provocaram forte desgaste na imagem da Igreja ao longo das últimas décadas.
O Vaticano informou que o papa pretende se reunir com vítimas durante sua passagem pela Espanha, embora os detalhes do encontro não tenham sido divulgados. Veículos da imprensa local informaram que a reunião deverá ocorrer de forma reservada na Nunciatura Apostólica, em Madri.
A decisão gerou questionamentos de entidades que representam vítimas e sobreviventes de abusos. Algumas associações afirmaram não ter sido incluídas na agenda e organizaram manifestações em frente à representação diplomática do Vaticano, cobrando maior transparência e participação.
Entre as reivindicações apresentadas pelos ativistas estão assistência psicológica permanente, indenizações adequadas e programas de apoio educacional e profissional para as vítimas.
A gravidade do problema foi evidenciada por um relatório divulgado em 2023 pelo Defensor do Povo da Espanha. O documento estimou que mais de 200 mil menores podem ter sido vítimas de abusos sexuais cometidos por integrantes do clero católico desde a década de 1940.
Em meio à crescente pressão social, governo espanhol e Igreja Católica firmaram, em março deste ano, um acordo voltado à compensação financeira de vítimas de crimes sexuais atribuídos a religiosos.
Crise global, migração e defesa da vida
Além da pauta relacionada aos abusos, o pontífice utilizou sua passagem pelo país para abordar temas internacionais. Em discurso diante de parlamentares espanhóis, afirmou que o mundo atravessa um período marcado por tensões sociais, conflitos e perda de confiança entre povos e instituições.
“O mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua”, disse.
O papa também dedicou parte de sua fala à questão migratória. Segundo ele, os desafios relacionados aos fluxos migratórios exigem cooperação internacional e não podem ser enfrentados isoladamente por cada país.
Leão XIV defendeu políticas baseadas no acolhimento, proteção e integração de migrantes, além de medidas destinadas a combater as causas que levam milhões de pessoas a abandonar seus locais de origem, como guerras, pobreza e impactos das mudanças climáticas.
Outro tema abordado foi a defesa da vida. Em meio ao debate político espanhol sobre a possibilidade de ampliar garantias constitucionais relacionadas ao aborto, o pontífice reafirmou a posição tradicional da Igreja Católica.
“Toda vida humana deve ser reconhecida e protegida, desde a concepção até seu fim natural”, declarou.
A programação da viagem prevê ainda compromissos em Barcelona, onde o papa deverá participar de uma cerimônia na Basílica da Sagrada Família, além de visitas às Ilhas Canárias, último destino da agenda oficial no país.