A prefeitura de São Paulo começou nesta segunda-feira (28) a remover parte da ciclovia que fica sob o Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, para dar lugar a vagas de estacionamento para carros. Com a mudança, a ciclovia que atualmente é larga, com uma faixa em cada sentido nas laterais do canteiro central, agora passará a ser uma ciclovia mais estreita, bidirecional, para dar espaço para os veículos.
A obra havia sido anunciada pelo vice-prefeito, Ricardo de Mello Araújo (PL), que está no comando da prefeitura desde a semana passada, já que o prefeito Ricardo Nunes (MDB) viajou para a China e Japão. Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que o projeto de bolsão de estacionamento “será implantado inicialmente de forma experimental em somente um trecho sob o viaduto para avaliação de viabilidade” e destacou que a ciclovia “será mantida com alguns ajustes para adequação à nova geometria”.
O coronel Mello afirmou ao GLOBO que a obra já estava acertada com o prefeito.
— Sempre conversamos. Já antes de viajar estávamos falando das possibilidades. Não vamos acabar com a ciclovia, ela permanece. Inclusive vamos pintar, estava desgastada — disse.
O plano para colocar vagas de estacionamento sob o Minhocão foi apresentado pela Subprefeitura da Sé à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em 19 de março, segundo ofício analisado pelo GLOBO. A proposta era implementar um “estacionamento de 45º ou linear ao longo do canteiro central da rua Amaral Gurgel e da Avenida São João”.
Em 14 de abril, a CET informou que as vias fazem parte do “sistema estrutural da cidade” e lembrou que desde 2015 há ciclovias implantadas no canteiro central das avenidas. Os técnicos da companhia explicaram que é possível colocar vagas em alguns trechos da Amaral Gurgel caso as vagas sejam lineares, e não inclinadas em 45 graus, mas que para isso seria preciso alterar a estrutura da ciclovia em alguns trechos. Além disso, a CET indicou a implantação de gradis nos pontos de curvas “para segurança de ciclistas e pedestres”.
Na prática, a faixa de circulação para os ciclistas ficará mais estreita, e os prejuízos já começam desde o início da obra, porque as futuras vagas de estacionamento abriram um buraco em um dos sentidos da ciclovia que corre por baixo do Minhocão. Na tarde desta segunda, ciclistas desviam da obra dividindo uma única faixa no canteiro central da Amaral Gurgel, que tem 7 metros de largura e duas ciclofaixas unidirecionais com largura de 1,30 metro por sentido.
Já na Avenida São João, a situação é mais delicada, e a CET indicou que “há poucos locais com eventual possibilidade de implantação de vagas de estacionamento longitudinal à via e sem prejuízo a estrutura cicloviária”, pois há trechos em que a ciclovia já é numa faixa só, bidirecional. Nesses casos, os técnicos destacaram que “existirá o conflito entre o acesso à vaga e a circulação de ônibus no corredor” e apontou para riscos tanto para os pedestres quanto para os ciclistas.
Críticas
A obra sofreu críticas de cicloativistas e vereadores da oposição. O vereador Nabil Bonduki (PT) afirmou que deve entrar com uma ação na Justiça para tentar barrar a obra.
— No fim de tarde aqui fica tudo congestionado, imagina carros entrando e saindo daqui? Não tem sentido do ponto de vista urbano e nem do ponto de vista da mobilidade. Vai atrapalhar a ciclovia e a população de rua vai continuar existindo, ela não vai sumir porque você retirou um pedaço do local onde ela fica — diz Bonduki.
As vagas ficam em um trecho da Rua Amaral Gurgel que conta com oficinas mecânicas, lojas de materiais de construção e um posto de gasolina.
— Não acho ruim ter mais vagas de estacionamento. Também pode inibir o pessoal que para ali com as carroças (de material reciclável), apesar que eles nunca me atrapalharam — diz o comerciante Alexandre Batista, dona de uma loja de esquadrias metálicas na Amaral Gurgel.
— Não acho uma boa solução, atrapalha a gente que usa a ciclovia. Vamos ter que disputar espaço na rua com com carro e moto? E não resolve o problema do pessoal em situação de rua — afirma o entregador Max Ferrari.
A vereadora Renata Falzoni (PSB), que também é cicloativista, disse que “a real intenção por trás dessa medida é afastar as pessoas em situação de rua”, que costumam montar barracas no local.
— Quando é para construir uma ciclovia, há uma infinidade de burocracias e processos a seguir e mesmo assim, depois de tudo aprovado, as estruturas não saem do papel. Mas para retirar o espaço de pedestres e ciclistas, basta uma canetada do vice-prefeito. E o pior: para abrir mais espaço para o automóvel, que é algo que vai contra o Plano Diretor e as necessidades da cidade frente às emergências climáticas — disse.