Tarcísio, Nikolas e os filhos de Bolsonaro: a nova batalha pelo comando da direita

A primeira leva de rompimentos ocorreu quando Bolsonaro ainda estava no poder e trabalhava pela reeleição

A menos de um ano das eleições de 2026, o campo bolsonarista vive uma movimentação silenciosa de disputa interna. Diversos nomes da direita tentam ganhar espaço e assumir o protagonismo sem repetir os embates diretos que, no passado, levaram ao isolamento político de quem rompeu frontalmente com Jair Bolsonaro.

Entre 2019 e 2022, figuras como Joice Hasselmann e Janaina Paschoal sofreram quedas vertiginosas de votação após confrontarem o ex-presidente. Agora, porém, a nova geração de dissidentes tenta trilhar um caminho mais calculado: mantém gestos públicos de respeito a Bolsonaro, mas se apresenta com um discurso mais moderado.

Esse rearranjo político tem como vitrine a aproximação do centrão — bloco que domina o Congresso — e de parte do empresariado em torno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). A articulação de outros governadores alinhados à direita reforça o movimento.

A primeira leva de rompimentos ocorreu quando Bolsonaro ainda estava no poder e trabalhava pela reeleição. Já o momento atual oferece um terreno diferente: o ex-presidente está condenado e preso, o que altera a lógica das alianças.

O embrião dessa reorganização apareceu na eleição municipal de 2024, quando Pablo Marçal quase superou o candidato apoiado pelo bolsonarismo em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes (MDB). A disputa mostrou que, dependendo do perfil do dissidente, afastar-se de Bolsonaro nem sempre significa suicídio político.

Com Bolsonaro preso, os filhos mais velhos — Flávio, Eduardo e Carlos, todos do PL — se mobilizam para manter a centralidade da família dentro da direita. Além de cobrar fidelidade, tentam reforçar a narrativa de que o bolsonarismo possui liderança definida e não admite uma sucessão natural.

Como revelou a colunista Mônica Bergamo, Flávio intensificou movimentos para se colocar como possível candidato à Presidência, algo malvisto pelo centrão, que trabalha para unificar o campo conservador em torno de Tarcísio.

Na véspera, em entrevista à Jovem Pan, Eduardo criticou figuras da direita que, segundo ele, tentam ocupar um lugar que não lhes pertence. Declarou que, sem Bolsonaro na disputa, falta alguém capaz de reunir todas as correntes da direita, e que prefere evitar “gato por lebre” em 2026.

O recado, embora sem nomes diretos, mira Tarcísio e governadores como Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Romeu Zema — além de quadros emergentes como o ex-ministro Ricardo Salles (Novo) e o deputado Nikolas Ferreira (PL).

No entorno da família Bolsonaro, há quem avalie que Nikolas, apesar da enorme visibilidade e de ter sido o deputado mais votado em 2022, não utiliza seu alcance para defender o ex-presidente. Uma publicação que circulou nas redes de Eduardo no início de novembro o acusava de tentar se desvincular do bolsonarismo sem perder o apoio dos eleitores alinhados ao grupo.

Outro foco de tensão é a decisão de lançar Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina, medida que dividiu a base no estado. A deputada Ana Campagnolo (PL) se opôs à ideia e passou a ser atacada pelos filhos do ex-presidente, que exigem alinhamento total.

Pressões como essa, avalia Fabio Wajngarten, ex-chefe da comunicação do governo, podem custar caro: políticos marcados como traidores tendem a perder votos rapidamente.

Apesar dos atritos, tanto Nikolas quanto Tarcísio receberam autorização do ministro Alexandre de Moraes para visitar Bolsonaro nas próximas semanas, movimento que pode amenizar tensões.

Para o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), a direita enfrenta um dilema: se passar a liderança oficialmente a Tarcísio, corre o risco de empurrar Bolsonaro para o ostracismo e prejudicar a eleição de uma bancada mais radical. Segundo ele, muitos desses nomes temem ser absorvidos pelo centrão.

FOCOS ATUAIS DE RACHADURA NO BOLSONARISMO
Governadores de direita

Buscam se viabilizar como sucessores de Lula sem confrontar abertamente Bolsonaro. Mesmo assim, foram chamados de “ratos” por Carlos e Eduardo, acusados de tentar herdar o capital político do pai.
Inclui: Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Romeu Zema. Em Brasília, o grupo recebeu apoio de Cláudio Castro, que vive momento de popularidade após operações de segurança no Rio.

Tarcísio de Freitas

É o nome favorito do centrão e do mercado para 2026. Por isso, virou alvo da família Bolsonaro. Eduardo chegou a acusá-lo de jamais ter ajudado o ex-presidente juridicamente e só estar “se aquecendo para 2026”.

Carlos Bolsonaro em Santa Catarina

A candidatura do vereador ao Senado provocou cisão interna no estado. Campagnolo virou a voz mais crítica e passou a ser atacada pelos herdeiros de Bolsonaro.

Nikolas Ferreira

Mais votado do país em 2022 e sucesso nas redes, é acusado por bolsonaristas de não defender Bolsonaro com firmeza. Uma postagem compartilhada por Eduardo sugere que ele quer se desvincular do ex-presidente.

10 PERSONAGENS DA PRIMEIRA DEBANDADA — ANTES E DEPOIS

(A lista foi totalmente reescrita, mantendo o conteúdo factual)

Joice Hasselmann
• Antes: eleita com votação expressiva e líder do governo no Congresso.
• Depois: rompeu, virou crítica do governo e perdeu quase toda a base eleitoral, acumulando baixíssimos votos em 2022 e 2024.

Alexandre Frota
• Antes: eleito na onda bolsonarista.
• Depois: rompeu, apoiou Lula, não conseguiu novos mandatos e teve a cadeira de vereador cassada.

Janaina Paschoal
• Antes: recordista de votos na Alesp.
• Depois: adotou postura independente, fracassou na disputa ao Senado e voltou à política municipal em 2024.

João Doria
• Antes: associou sua campanha ao bolsonarismo em 2018.
• Depois: rompeu na pandemia e deixou a política após fracassar como presidenciável.

Wilson Witzel
• Antes: eleito com apoio do clã Bolsonaro.
• Depois: virou desafeto, sofreu impeachment e deixou o cargo.

Gustavo Bebianno
• Antes: figura-chave da campanha de 2018.
• Depois: saiu após atritos com Carlos Bolsonaro; faleceu em 2020.

General Santos Cruz
• Antes: ocupava posição estratégica no governo.
• Depois: foi demitido após choques internos e nunca consolidou projetos eleitorais.

Luiz Henrique Mandetta
• Antes: ministro da Saúde desde o começo do governo.
• Depois: demitido por divergências na pandemia, tentou vaga no Senado e perdeu.

Sergio Moro
• Antes: “superministro” da Justiça.
• Depois: rompeu acusando interferência na PF, não conseguiu se firmar como presidenciável e voltou a se alinhar ao bolsonarismo ao se eleger senador.

Abraham Weintraub
• Antes: símbolo ideológico do governo na Educação.
• Depois: distanciou-se do núcleo bolsonarista, não se elegeu e não avançou com projetos eleitorais de 2024.