Bolsonaro enfrenta pulverização, e PL prevê dobrar número de prefeituras nas eleições deste ano

Após as eleições municipais de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu parlamentares próximos no Palácio da Alvorada e compartilhou sua análise sobre o resultado: para ele, partidos de centro como o PSD e o MDB saíram como os grandes vitoriosos daquele pleito — um grupo que Bolsonaro referia como a “turma do Luciano Huck”. A avaliação era de que a direita, dispersa entre várias legendas, precisava de uma sigla única para concentrar o voto ideológico.

Quatro anos depois, o cenário mudou. Hoje, o movimento bolsonarista está centralizado no Partido Liberal (PL) e, segundo as pesquisas mais recentes da Quaest, lidera a disputa em 14 capitais. A união entre Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, presidente do PL, resolveu a fragmentação vista em 2020 e trouxe a legenda para o centro da arena política, conquistando a maior bancada do Congresso nas últimas eleições e garantindo o maior fundo eleitoral entre os partidos, com R$ 886,8 milhões. O montante está sendo investido em campanhas que priorizam valores conservadores.

No entanto, o processo de “bolsonarização” do PL gerou tensões internas. Lideranças expressam descontentamento com a forma como Bolsonaro tem se posicionado, gravando apoios a candidatos com pouca afinidade ideológica com ele em algumas cidades, como Guarulhos e Taubaté. Parlamentares ouvidos pelo Estadão apontaram que essa postura tem gerado desconforto.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), que se afastou temporariamente do Senado para coordenar as campanhas do PL em nível nacional, estima que o partido dobrará o número de prefeituras conquistadas em comparação com o pleito anterior, quando alcançou 345. Ele reforça que a situação atual não se compara a 2020, já que o partido não tinha a mesma identidade política que possui hoje.

“Estamos em nossa primeira campanha com um perfil claro de direita no Brasil”, afirma Marinho. “Mas ainda é um processo de construção, que leva tempo para se consolidar.”

Em capitais como Maceió, Aracaju, Palmas e Rio Branco, candidatos alinhados a Bolsonaro aparecem com vantagem de ao menos dez pontos percentuais sobre os adversários. Em Maceió, o prefeito JHC está na liderança com 74% das intenções de voto e deve garantir a reeleição no primeiro turno. No Acre, Tião Bocalom (47%) segue na mesma linha. Já em Fortaleza, André Fernandes está na frente com 25%, enquanto Bruno Engler (21%) aparece empatado tecnicamente na liderança em Belo Horizonte, e Abílio Brunini (26%) disputa de perto a preferência em Cuiabá.

Nas regiões onde o PL não possui candidatos competitivos, a legenda tem se posicionado como vice em chapas que dominam as pesquisas, como em Porto Velho, Boa Vista, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre, com uma diferença que varia de 17 a 45 pontos sobre os segundos colocados. Em Campo Grande, a chapa com Coronel Neidy (PL) de vice está tecnicamente empatada na liderança. Já em Salvador, o PL não tem candidato próprio, mas compõe a coligação que deve reeleger Bruno Reis (União), que detém 74% das intenções de voto.

A situação em São Paulo é particular. Dos três principais concorrentes, dois disputam o eleitorado bolsonarista: o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que tem o coronel Mello Araújo (PL) como vice, e Pablo Marçal (PRTB), que tenta se consolidar como alternativa. Bolsonaro, por ora, mantém neutralidade para não comprometer sua relação com nenhum dos dois, o que lhe permite beneficiar-se caso qualquer um deles vença.

O PL investiu R$ 134,9 milhões do seu fundo eleitoral em candidaturas nas 21 capitais onde participa, com destaque para os R$ 26 milhões destinados a Alexandre Ramagem no Rio de Janeiro. A missão de Ramagem, ex-diretor da Abin, é evitar uma vitória tranquila de Eduardo Paes (PSD) e levar a disputa para o segundo turno.

Apesar do ambiente político polarizado, tanto Bolsonaro quanto o presidente Lula (PT) têm se mantido relativamente afastados das campanhas municipais. As exceções ficam por conta de casos como Fortaleza, onde há possibilidade de um segundo turno entre André Fernandes e o petista Evandro Leitão, representando um confronto direto entre as duas maiores forças políticas do país.

Para Rogério Marinho, embora o partido aposte em um discurso conservador, ele acredita que o voto ideológico não terá o mesmo peso que na eleição presidencial de 2022 e que questões práticas, como a administração das cidades, serão decisivas na escolha dos eleitores. Ele também minimiza a importância das eleições municipais para a definição do cenário de 2026.

“A eleição municipal não é necessariamente um termômetro para a disputa presidencial. O que vamos observar no próximo domingo é que a direita se consolidou no Brasil”, conclui o senador.